Festa para a indústria de fora

A expansão do mercado brasileiro está sendo uma festa para o industrial estrangeiro, bem mais do que para o nacional. No ano passado, a importação supriu quase um quinto - 19,8% - dos bens industriais comercializados no Brasil, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Foi um recorde, facilitado pela valorização do real, pelo aumento de custos de produção e, de modo geral, por um amplo conjunto de desvantagens do produtor brasileiro. Os dados da CNI confirmam e enriquecem com detalhes importantes o quadro geral das contas nacionais, divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo esse quadro, o consumo das famílias cresceu 2,1% em 2011, enquanto a produção industrial aumentou apenas 1,6%. Quando se considera só a indústria de transformação, isto é, manufatureira, o cenário é bem mais feio, porque o crescimento, nesse caso, foi quase nulo: 0,1%.

O Estado de S.Paulo

21 Março 2012 | 03h07

Esses números proporcionam mais uma clara confirmação de um problema detectado há bem mais de um ano - o descompasso entre a demanda de consumo, fortalecida pelo crédito e pelo aumento da massa de salários, e a oferta interna de bens industriais. A diferença tem sido coberta pela produção estrangeira, realizada em condições muito mais favoráveis que as da indústria brasileira.

Também o coeficiente de exportação, isto é, a relação entre o valor exportado e o produzido no País, aumentou dois pontos porcentuais em 2011, chegando a 19,8% - variação igual à do coeficiente da importação no mercado interno. Mas a proporção entre as vendas externas e a produção continuou bem inferior à registrada em 2004, quando chegou ao recorde de 22,9%.

Em outras palavras: em sete anos a indústria brasileira perdeu poder de competição tanto fora do País quanto no mercado interno. Novamente, o quadro é bem pior quando se deixa de lado o setor extrativo e se considera apenas a indústria de transformação. Para este segmento, o coeficiente de exportação de 2011 ficou em 15%, apenas 1,1 ponto acima do registrado no ano anterior e 6,6 pontos abaixo do nível observado em 2004.

Não só produtos acabados, no entanto, têm entrado em volumes crescentes no mercado brasileiro. Também tem crescido o volume de insumos importados, isto é, de matérias-primas e bens intermediários destinados à fabricação de bens finais. O coeficiente de insumos importados aumentou 2,6 pontos porcentuais e chegou a 21,7% em 2011, segundo a CNI. Houve aumento de 0,4 ponto em relação ao nível de 2008, o recorde anterior.

O uso de componentes importados é normal em todo o mundo. É uma das características da nova divisão do trabalho. Bens industriais são produzidos num país com insumos igualmente industriais fabricados em outros países. Componentes eletrônicos, autopeças, produtos químicos e partes para aviões aparecem nas grandes cadeias internacionais de produção. A indústria globalizou-se e isso eleva a eficiência e reduz os custos.

Mas essa tendência, observada em todo o mundo industrializado, explica apenas parcialmente o aumento da importação de insumos pelas empresas brasileiras, tanto de capital nacional quanto de capital estrangeiro. Tudo seria perfeitamente saudável, em termos econômicos, se a importação de matérias-primas e componentes refletisse apenas as vantagens comparativas normais da produção em cada país. Não é isso que acontece aqui.

Indústrias brasileiras de vários setores seriam bem mais competitivas, se o ambiente de negócios e as políticas públicas fossem menos desfavoráveis. Isso inclui a segurança jurídica, o custo da burocracia (o tempo necessário para uma licença, por exemplo), a oferta de mão de obra em condições pelo menos de ser treinada, as condições da infraestrutura, a natureza da tributação e assim por diante.

O custo e a disponibilidade de crédito são também muito importantes, mas esse e outros fatores dependem, como já se mostrou inúmeras vezes, da qualidade das finanças públicas. A valorização do real é apenas mais um fator de encarecimento dos produtos brasileiros. Se o real se depreciar, os outros fatores, muito mais enraizados, permanecerão.

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