Fidel Castro e a opção errada

Endeusamento do Estado e do ditador não impedirá chegada da riqueza a Cuba

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2016 | 03h02

Dias atrás o mundo foi sacudido por uma notícia que parecia ter importância: o nonagésimo aniversário do ditador Fidel Castro. Em verdade, esse deveria ser um momento de tristeza universal, porque os males por ele impostos ao povo cubano só desaparecerão a partir do momento em que lá acontecer o milagre da democracia, com eleições livres e um Judiciário independente do governo.

Sem presos políticos julgados pela ditadura, sem freios sociais que impeçam a livre movimentação do povo, serão inevitáveis em Cuba o contágio e a influência da riqueza americana (a próspera Flórida está a apenas 90 km de Cuba).

As crianças cubanas desde muito cedo são submetidas a intensa lavagem cerebral destinada a mostrar que Fidel Castro é quase um deus, porque “salvou” a população cubana das monstruosidades do capitalismo e impediu que os vícios burguesia contaminassem o país. Pessoas que cresceram nesse ambiente são mesmo inclinadas a idolatrar o ditador. Mas, gradativamente, percebem-se sinais de mudanças e por isso o endeusamento do Estado e de seu ditador, com o consequente empobrecimento da população, não será suficiente para impedir a chegada da riqueza.

É incrível que o ideal comunista por mais de um século tenha contaminado até mesmo pessoas inteligentes. Tudo começou com o filósofo prussiano G. W. Hegel, atração máxima de Karl Marx.

Hegel defendia a ideia de que toda vida está em constante fluxo e o momento da criação inicia um processo que termina com a dissolução e morte. Assim, na sua visão, que ao mesmo tempo encantou e assustou parte da burguesia europeia, toda ideia (tese) é inevitavelmente contrariada por um conceito oposto (antítese) e de sua luta surge a síntese. Quando a síntese nasce e se impõe, assume a feição de tese, renovando o círculo.

O trio hegeliano tese-antítese-síntese, conhecido como tríade, expõe um processo que recebeu a denominação de dialética, palavra tantas vezes repetida, mas cujo significado grande parte das pessoas jamais entendeu direito.

O ideal comunista surgiu desse conceito, pois Hegel dizia que a dialética é o caminho que a vida segue e continuará a seguir sempre. Contaminado por esse pensamento, que foi moda em sua época, Marx defendeu a ideia de que o ideal seria introduzir na dialética o elemento luta – e, mais que isso, a sua inevitabilidade.

Enfim, a luta sempre existiu, entre o velho e o novo, com a vitória inevitável do novo. Na visão apaixonada de Marx, que contaminou as gerações e ainda hoje encontra defensores nos partidos de esquerda brasileiros, assim como o feudalismo venceu a escravidão, no curso da História o socialismo substituirá o capitalismo.

As ideias de Marx não eram nada pacifistas, porque defendia a destruição da burguesia e do capitalismo, com sua substituição pelo proletariado, culminando com o sonho de um processo social em que o Estado, tendo sido ao longo dos séculos servo da burguesia, acabaria extinto, com a implantação do comunismo.

Em alguns pontos de seu pensamento Marx pareceu prever situações que vemos em alguns países nos dias presentes. Para ele, o capitalismo é suicida e restará tão desmoralizado que a crise econômica inevitável apresentará clara feição revolucionária (parece ter acertado quando voltamos os olhos para o que aconteceu em Cuba, com Fidel Castro, e agora com a Venezuela, em ruínas).

A utopia comunista sempre foi muito sedutora, por vários motivos, mas sobretudo porque, segundo ela, a sociedade sem classes, quando for atingida, levará ao desaparecimento não só do Estado, como também das diferenças nacionais e à ausência de ódio entre os povos. Enfim, com o desaparecimento do capitalismo, as pessoas viveriam como irmãos, em que de cada um se exigiria conforme sua capacidade e a cada um se daria conforme sua necessidade.

Nada disso aconteceu, porque com o passar dos tempos se viu que a substituição do novo pelo velho, nos regimes socialistas, levou não à irmandade entre as pessoas e os povos, mas ao endeusamento do Estado, com o empobrecimento da população. Os exemplos da Alemanha comunista e da extinta União Soviética deixaram claro que a igualdade de todos, prevista por Hegel e Marx, acabou por igualar salários entre pessoas de diferentes capacidade de produção.

O resultado dessa conduta ideológica, por ser antieconômica e levar à pobreza coletiva, levou insatisfação crescente aos governados, culminando com o fim da utopia em praticamente todo o mundo. Menos afetados pelo lado ideológico, os chineses descobriram que mesmo num país governado por partido comunista o lucro não é coisa ruim.

Realmente, com sua incrível sensibilidade, na década de 1980 o líder chinês Deng Xiaoping percebeu claramente que os trabalhadores de uma fábrica, iguais em seus salários e produção, se tornavam diferentes e lucrativos para o Estado quando ganhavam um plus caso produzissem mais. Com essa perspectiva de lucros, que contaminou a massa trabalhadora, a produção chinesa cresceu ao ponto em que se encontra hoje, como segunda economia mundial. Isso a despeito de o país ser governado pelo Partido Comunista. Enfim, os chineses descobriram o lucro e que gerar riquezas, ao invés de igualar a pobreza entre todos, é o caminho para proporcionar aos governados um padrão de vida coletivo nunca antes conhecido na China.

Costuma-se dizer que Marx, ao fim de sua vida, chegou a declarar: “Eu não sou marxista”. É possível que seja verdade, mas se não for e ele estivesse vivo ainda hoje, após os despenhadeiros econômicos vividos pela extinta União Soviética, pela Alemanha Oriental e por Cuba, ele talvez reconhecesse: “Eu não disse nada daquilo”.

*Desembargador aposentado do TJSP, foi secretário da Justiça de SP. e-mail: aloisio.parana@gmail.com

 

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