Fígado, cérebro ou coração?

Pergunte-se a um grupo de médicos qual o órgão mais importante do corpo humano e certamente assistiremos a diálogos intermináveis e inconclusos. O fígado é o filtro, o coração é a bomba, o cérebro toma decisões, cada um com sua fatal indispensabilidade. Impossível o funcionamento aceitável do corpo sem o concurso dessas peças. Coração sem fígado envenena-se, fígado sem cérebro desgoverna-se, cérebro sem coração morre de inanição e, dizem os poetas, de falta de emoção...

João Crestana, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2012 | 03h06

Sustentabilidade urbana, conceito complexo e mal conhecido, apresenta também seus três componentes orgânicos essenciais, inexoráveis e indispensáveis: o espaço ambiental e cultural, o desenvolvimento econômico e a responsabilidade social.

Inútil privilegiar um deles em detrimento de qualquer dos outros. Temos assistido a intervenções de atores sociais ignorantes dessa cooperação essencial, ou mal-intencionados. Empresários sem escrúpulos a prejudicar o ambiente e a cultura; ambientalistas facciosos e oportunistas a travar o desenvolvimento; e administradores públicos privilegiando o corporativismo e interesses individuais, para imenso prejuízo da sociedade. Além disso, entidades estrangeiras públicas e privadas se sentem no direito de impor condutas inexistentes em seus países. É notória a influência de ONGs forasteiras que agem para prejudicar nosso bom funcionamento orgânico: em vez de se preocupar em recompor suas florestas devastadas, seus litorais destruídos e suas manadas de espécies quase extintas, vêm aqui incentivar a cizânia e pontificar sobre orações que não rezam em suas próprias casas.

Compete unicamente aos cidadãos brasileiros conceber e implantar nossa sustentabilidade. Tecnologia do exterior pode ser estudada, pois arrogância não está no caráter dos brasileiros. Mas a soberania nacional afasta qualquer ingerência: brasileiros decidirão sobre o espaço Brasil, e não qualquer intrometido interessado em dificultar o aperfeiçoamento de nossa nação, talvez com vista a minar antecipadamente o amadurecimento de um pujante concorrente.

Prosseguindo em nossa analogia de sustentabilidade e anatomia, vamos admitir que o fígado seja a proteção ao meio ambiente e ao patrimônio cultural. O legado de parques, rios, fauna e flora, bem como o conjunto histórico e cultural das cidades merecem respeito e reverência permanentes, de tal forma que as futuras gerações recebam o que nos emprestaram durante nossa vida. É dos futuros seres humanos este patrimônio ambiental e cultural, e não da nossa geração.

Hoje os pensadores urbanos têm consciência de que a melhor estratégia para a boa qualidade ambiental e cultural é o planejamento, o projeto urbanístico bem concebido e a execução de intervenções no tecido metropolitano a fim de melhorar o funcionamento sustentável. Não se protege por inação e abandono. Ao nada fazermos com uma margem de rio, com um grupo de árvores ou com um edifício tradicional, muitas vezes agimos contra a cultura e o ambiente. Tombamento, conforme querem alguns ideólogos puristas ou hipócritas oportunistas, sem contar com recursos e sem manutenção, leva à decadência, à deterioração e ao abandono dos espaços. Se vamos preservar, urge prover recursos para manter, bem como urge ensinar as novas gerações, didaticamente: turmas de jardineiros e operários de manutenção trabalhando em meio a professores e pais, transmitindo cultura a crianças e adolescentes. Tombar para favorecer dependentes químicos ou marginais vivendo no lixo decorrente do abandono é demonstrar ignorância ou má-fé. Se higienismo é ruim, negligência administrativa privilegiando o assistencialismo e a exploração do miserável por oportunistas é muito pior.

O coração e a circulação representam, sem dúvida, o desenvolvimento econômico, a geração e a distribuição de resultados que coroam o mérito humano. Sem trabalho e recursos financeiros, a miserabilidade incentivaria massas famintas à destruição, à prevalência do mais forte - "homem lobo do homem". A propriedade, a livre-iniciativa, lucros honestos e consequentes pagamentos de salários e impostos são sagrados para os investimentos, para a melhoria das condições da cidade, de transportes públicos, espaços de convivência, parques, creches, escolas e hospitais. Sangue vivo e ativo a motivar os cidadãos.

O coração precisa de ritmo, dado à sociedade por instituições, leis, regras formais e informais, costumes, crenças, personalidade e atitude da sociedade, cadência do povo.

E desgovernada seria a sustentabilidade sem o livre-arbítrio do cérebro, representado pela responsabilidade social. Justiça, generosidade e ética. O propósito deve definir qualidade de vida para todos, inserção, igualdade de oportunidades, espaços urbanos democráticos e privilégio a pedestres, ciclistas, usuários do transporte público. Polos urbanos densos, compactos, e com "caminhabilidade", onde trabalho, lazer, serviços e habitação são próximos, ou seja, poucos minutos entre origem e destino. Acessibilidade fácil e agradável a idosos e pessoas com deficiência. Inexoravelmente, um dia teremos deficiências; o tempo rouba-nos, dia a dia, agilidade e capacidade física.

Onde investir os recursos provenientes de impostos e taxas? Certamente, não na ineficiência e na corrupção, ou na defesa de corporativismos improdutivos e sectários de grupos em prejuízo da sociedade, da Nação.

Algum médico urbano consciente teria coragem de dizer qual dos componentes desta analogia é a mais importante? Ambiente sem dignidade econômica, desenvolvimento sem consciência social, função social sem projeto urbano racional de progresso sustentável?

O legado a deixar às próximas gerações é a solidariedade sentimental em torno de uma atitude ética harmonizando esta sustentabilidade urbana nacional, completa, perene e funcional.

 

*Presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP (Sindicato da Habitação), da Comissão Nacional da Indústria Imobiliária da CBIC e pró-reitor da Universidade Secovi

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