Fim da alta de juros?

Com inflação mais branda e menor risco de um novo surto de aumentos, é hora de interromper a alta dos juros básicos, segundo o Banco Central (BC). A maior parte do mercado financeiro havia apostado na manutenção da taxa em 10,75% ao ano, confirmada na quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Para muitos analistas, foi encerrado o quarto e último ciclo de alta de juros da atual administração do BC. Até o fim do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não haverá novidades nessa área, segundo esses especialistas. Porta-vozes da indústria e do comércio, no entanto, cobram mais. Com os preços contidos e a economia em marcha segura, a autoridade monetária deveria ter baixado os juros, disseram em coro os dirigentes das principais entidades empresariais. Também essa reação era previsível. Líderes empresariais não costumam surpreender com declarações e comentários fora do padrão. Mas tocaram numa questão relevante: poderia o Copom ter iniciado a redução da Selic, a taxa básica, em vez de simplesmente mantê-la?

, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2010 | 00h00

A resposta é "não". Poderia ser positiva somente se o Copom houvesse reconhecido um erro. Segundo seus críticos, a autoridade monetária errou na avaliação das pressões inflacionárias, quando resolveu elevar os juros. Mas a diretoria do BC jamais admitiu que errou - e, além disso, a opinião dos críticos é muito discutível. As condições do mercado mudaram, realmente, no segundo trimestre, quando estímulos fiscais ao consumo de certos bens foram retirados. Entre abril e junho a atividade econômica arrefeceu e isso foi reconhecido quando o Copom, em julho, reduziu de 0,75 para 0,50 ponto a elevação da Selic. Mas os dados de julho mostram uma retomada do crescimento da indústria e a evolução do emprego e da renda dos trabalhadores é ainda propícia a uma firme evolução do consumo.

O forte aquecimento econômico observado até o primeiro trimestre pode ter-se esgotado, mas não se pode falar de uma inversão de tendências. A cautela do Copom é compreensível. A nota emitida depois de sua reunião, na quarta-feira, mostra esse cuidado: "Neste momento, a manutenção da taxa (...) proporciona condições adequadas para assegurar a convergência da inflação para a trajetória de metas." Em outras palavras, não há base, por enquanto, para uma decisão mais audaciosa.

Ainda haverá, neste ano, reuniões do Copom em outubro e em dezembro. Pelas projeções coletadas na semana passada pela pesquisa Focus, do BC, a Selic deverá manter-se em 10,75% até dezembro. A inflação medida pelo IPCA, a baliza do regime de metas, continuará em queda e ficará em 5,07% em 2010. Poderá cair mais um pouco no próximo ano, mas nova previsão, 4,87%, é um pouco mais alta que as anteriores. Esse quadro combina com a expectativa de uma Selic mais alta no fim de 2011: 11,50%.

Não há, neste momento, informação suficiente para prever um corte de juros nas próximas sessões do Copom nem o momento inicial de um novo ciclo de alta em 2011. Do lado externo, por enquanto, não há sinal de pressões inflacionárias importantes, embora as previsões de alta de preços tenham subido um pouco na zona do euro.

O mundo rico permanece atolado em dificuldades e a recuperação da demanda, nos Estados Unidos e na maior parte da Europa, será lenta por um bom tempo. A demanda dos emergentes, especialmente da China, continuará sendo o principal foco de dinamismo do mercado global. Apesar de tudo, não há como descartar pressões novas sobre as matérias-primas, especialmente se o crescimento chinês continuar vigoroso.

A economia brasileira provavelmente crescerá em 2011 em ritmo bem mais moderado que o do começo de 2010. E a forte dependência do mercado interno será um fator de risco. Sem uma aceleração dos investimentos, a demanda interna continuará impondo um rápido crescimento das importações. Sem essa válvula de escape, as pressões inflacionárias tenderão a crescer. Mas a deterioração do balanço de pagamentos acabará pressionando o câmbio. Se isso ocorrer, uma das âncoras dos preços será perdida. De toda forma, qualquer desvalorização cambial significativa produzirá esse efeito, se não em 2011, certamente nos anos seguintes.

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