Fim da campanha no Afeganistão

O engajamento militar americano no Afeganistão foi encerrado discretamente no último dia 28/12, depois de 13 anos de duros combates. Foi uma das mais longas guerras travadas pelos Estados Unidos. Não se pode dizer que tenha sido um completo fracasso, mas é certo que o principal objetivo americano - derrotar o Taleban - não foi atingido.

O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2015 | 02h05

As forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que combateram no Afeganistão, sob a liderança dos Estados Unidos, fizeram a transferência simbólica do comando para as tropas locais, em uma cerimônia para poucas pessoas - que em nada lembrou a estridência que marcou o início do conflito.

A invasão do Afeganistão, no distante ano de 2001, foi uma resposta ao atentado contra o World Trade Center. Contudo, não foi apenas uma campanha contra a Al-Qaeda, organização que cometeu o inominável ato de terror do 11 de Setembro, nem o Taleban, grupo fundamentalista que a abrigava. Foi uma tentativa de transplantar, para o coração da Ásia Central - como no caso do Iraque de Saddam Hussein -, as instituições e os valores ocidentais, sob o argumento de que a democracia serviria de antídoto para o radicalismo islâmico que promove o ódio aos Estados Unidos.

Pouco mais de um ano após o início da guerra, o então presidente George W. Bush, no discurso sobre o Estado da União, disse que o país havia "liberado um povo oprimido" e que os americanos continuariam a ajudar os afegãos a "proteger seu país, reconstruir sua sociedade e educar todos os seus filhos".

O custo dessa utopia foi mensurado em algo em torno de US$ 1 trilhão, entre gastos militares e investimentos na infraestrutura do Afeganistão. Morreram 3.485 soldados da Otan, dos quais 2.356 americanos.

A tarefa inicial - tirar o Taleban do poder - foi cumprida um mês após a invasão. A missão seguinte, contudo, permanece inconclusa. Em primeiro lugar, o Taleban continua a ser uma força considerável, controlando vastas áreas no interior do Afeganistão e mantendo sob permanente ameaça terrorista a capital do país, Cabul - razão pela qual a cerimônia que marcou o fim da participação americana foi cercada de forte segurança.

Segundo o comando da Otan, os 350 mil soldados afegãos treinados pelos Estados Unidos e seus aliados são considerados "altamente capazes" de combater o Taleban sem a ajuda direta dos militares ocidentais.

Restarão apenas 13,5 mil soldados da Otan no país, dos quais 11 mil americanos, que darão auxílio técnico e treinamento para os afegãos, além de participar de operações de contraterrorismo e de providenciar apoio aéreo para as incursões militares terrestres.

Esse apoio deve ser encerrado em 2016, quando os Estados Unidos esperam retirar do Afeganistão seu último soldado, conforme promessa do presidente Barack Obama, que estará então no final de seu mandato. Para Obama, esse desfecho representa uma "conclusão responsável" da intervenção americana naquele país.

O Taleban aproveitou o momento para cantar vitória. Por esse motivo, predomina entre os afegãos o receio de que os americanos farão muita falta, e não somente no aspecto militar. O início do processo de retirada das forças ocidentais marcou também a redução dos investimentos ocidentais dos quais o Afeganistão desenvolveu forte dependência. Com a retirada e a precariedade própria do país, a economia local está estagnada.

Enquanto isso, o novo governo afegão, empossado há três meses, ainda não conseguiu formar seu gabinete - o que denota o caráter disfuncional da novíssima democracia afegã, a despeito do bilionário investimento americano.

Obama já havia dito que era preciso reconhecer que "o Afeganistão não será um lugar perfeito", mas que "não é responsabilidade dos EUA torná-lo um". Com isso, deixou claro que, no que depender do governo americano, o Afeganistão muito em breve terá mesmo de ser arranjar sozinho.

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