Fim da recessão com PIB ainda no buraco

Mas o presidente Temer comemora, fazendo embaixadas com bola murcha

*ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 03h00

O título acima pode parecer paradoxal, mas não é, como explicarei em seguida. Uma convenção entre economistas diz que uma recessão se instala quando o produto interno bruto (PIB) de um país mostra taxas de variação negativas em dois trimestres seguidos. No Brasil, em 2015 e 2016 houve uma grave recessão, pois taxas negativas marcaram todos(!) os trimestres desses dois anos. No seu conjunto, fizeram o PIB cair cerca de 7%. Esse é o tamanho do buraco.

A mesma convenção diz que uma recessão chega ao fim se a variação trimestral do PIB se mostrar positiva em dois trimestres seguidos. Isso ocorreu nos dois primeiros trimestres de 2017. Quando o IBGE divulgou o resultado positivo do primeiro, em 1.º/6/2017 e, portanto, antes do final do segundo, o presidente Michel Temer se antecipou à referida convenção e passou a fazer embaixadas com a bola do “fim da recessão”. O resultado do trimestre seguinte veio positivo e isso se repetiu até a última taxa disponível, a do primeiro trimestre deste ano. Temer seguiu com suas embaixadas, mas sem convencer a plateia. Como mostrarei mais à frente, essa bola é um tanto murcha, pois as taxas são muito pequenas. 

Ainda recentemente, ao completar dois anos de governo, em 12 de maio, ele afirmou que a “recessão que dizimava mais de 150 mil empregos/mês acabou. O emprego voltou, com cerca de 204 mil vagas com carteira assinada em 2018 e mais de 1,5 milhão de postos de trabalho gerados no último ano”, conforme notícia na internet. Entretanto, ignorou o fato, então já conhecido, de que a taxa de desemprego, que havia caído de 13,7% no primeiro trimestre de 2017 para 11,8% no último, subiu para 13,1% no primeiro de 2018, com uma redução de 1,5 milhão de pessoas ocupadas.

Passando às taxas de variação trimestral do PIB relativamente ao trimestre anterior, desde o primeiro de 2017 ao primeiro de 2018 elas tiveram estes valores: 1,1%, 0,6%, 0,3%, 0,2% e 0,4%, respectivamente. Ou seja, a bola do fim da recessão murchou ao longo de 2017 e no primeiro de 2018 sua murchidão se reduziu um pouco, mas sem repetir o alento que teve no primeiro de 2017. Os dois primeiros trimestres do ano são muito afetados pelo desempenho do setor agrícola, muito forte em 2017, mas menos atuante em 2018. 

E como fica a saída do buraco? Em 2017 o aumento total do PIB foi de apenas 1%, muitíssimo longe do necessário para sair do referido buraco de 7%. Quanto a 2018, as perspectivas são de que a bola do fim da recessão vai continuar murcha, talvez um pouco menos. Um primeiro aspecto está ligado aos números sequenciais do PIB. Como visto, ele subiu quatro degraus trimestrais em 2017 e mais um em 2018. Se estacionasse neste último no resto do ano, assumiria um valor médio superior ao valor médio de 2017 e assim haveria uma taxa positiva de crescimento em 2018. Isso é o que os economistas chamam de carry over, ou arrasto do crescimento anterior. Vi que medida dessa forma essa taxa seria de 0,85% e, assim, próxima de repetir o fraco desempenho de 2017, de 1%, já apontado.

Mas não crescer mais nada em 2018 seria uma hipótese muito pessimista. As previsões macroeconômicas mais influentes no Brasil são as publicadas semanalmente pelo relatório Focus, do Banco Central. Na edição de 5/1/2018 a previsão era de 2,7%, subiu para 2,9% em 2/3, mas depois passou a cair e em 15/6 estava em 1,8%, após sete quedas semanais ininterruptas. Em 12 de maio Temer também afirmou que a economia “agora deverá crescer mais de 2%”.

Tudo indica que não vai, pois há uma combinação particularmente desfavorável de vários fatores, muitos de difícil reversão. Focando em alguns, há a percepção do forte enfraquecimento político de Temer, agravado pelo contencioso jurídico que carrega, a ponto de ter abandonado seu projeto de reforma da Previdência Social, elemento-chave de um ajuste fiscal para efetivamente conter o forte desequilíbrio das contas públicas federais e a consequente e também forte expansão da dívida pública. É uma dívida peculiar, que se o governo pagasse com emissão monetária, o que só ele pode fazer, causaria enorme inflação e derretimento do valor real do dinheiro em circulação, disseminando perdas pelos agentes econômicos. E se não pagasse, deixando de refinanciá-la nos seus vencimentos, provocaria também enorme e generalizado prejuízo, algo como um confisco da poupança do setor privado aplicado em papéis dessa dívida e fundos lastreados neles.

O governo também se mostrou fraco ao sucumbir às demandas dos caminhoneiros, e há ainda generalizada incerteza quanto o futuro presidente, pois os candidatos em destaque nas pesquisas eleitorais têm comportamento e currículo que suscitam inquietações. Questões como essas afetam o estado de ânimo de empresários e consumidores, prejudicam suas decisões de investir e consumir, e assim também o desempenho do PIB. 

Olhando o buraco a que o PIB foi levado, outra visão de sua enorme dimensão é a de que dados do IBGE, representativos de seu valor real, mostram que no primeiro trimestre de 2018 ele retornou a um valor que já havia registrado entre o primeiro e o segundo trimestre de 2011! 

É mais uma década perdida, que se soma às dos anos 1980 e 1990, e mesmo a dos anos 2000 não teve um crescimento à altura das necessidades e do potencial do País. Ou seja, além do buraco atual, há também uma estagnação de longo prazo, entendida como tal uma situação não de crescimento nulo, mas aquém desse crescimento desejável. 

Salvo exceções cada vez mais excepcionais, a classe política brasileira segue sem perceber a enorme gravidade da situação em que hoje está o PIB, nem a dessa estagnação histórica. Quando as percebe e atua, não se mostra capaz de resolvê-las.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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