Finados em dezembro

Em vez do Natal, o fim de ano trouxe Finados para o comércio lojista, com recuo das vendas em quase todos os grandes setores, como alimentos, eletrodomésticos, calçados e roupas. Em dezembro, o volume vendido pelo chamado varejo restrito foi 7,1% menor que o de um ano antes. Incluído o tombo do comércio de veículos e componentes e de material de construção, tem-se o desastre do varejo ampliado, com movimento 11% inferior ao de dezembro de 2014. Em 12 meses, os dois indicadores acumularam perdas de 4,3% e 8,6%, reflexos indiscutíveis do desemprego crescente, da erosão do poder de compra das famílias, da eliminação de incentivos fiscais e da piora das condições de crédito. Nada permite prever, por enquanto, resultados muito melhores neste ano ou no próximo, mas tudo isto é apenas parte da mensagem contida nos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2016 | 02h55

Com inflação de 10,67%, contração de 8,3% na produção industrial e desemprego em torno de 9%, o ano de 2015 deve ter eliminado qualquer dúvida – se ainda pudesse haver alguma – sobre o fracasso da política econômica implantada pelo PT. A estratégia de crescimento baseada essencialmente no estímulo ao consumo, sem expansão do investimento e sem ganho de produtividade, produziu os efeitos previsíveis. A breve euforia dos consumidores foi logo seguida de inflação crescente, estagnação da indústria, aumento veloz da importação e piora da conta corrente do balanço de pagamentos.

A redução do desequilíbrio externo, a partir do segundo semestre do ano passado, resultou principalmente da recessão e em parte da depreciação cambial: a receita de exportações continuou em queda, mas a queda maior do valor importado melhorou o saldo comercial. Efeito semelhante ocorreu nas contas de serviços e de rendas. Essa tendência se tem mantido neste ano.

Os efeitos da inflação e do crédito mais escasso e mais caro são visíveis principalmente nas vendas de móveis e eletrodomésticos (–14% em um ano) e de veículos (–17,8%). Pesou também a eliminação de incentivos fiscais dirigidos a setores selecionados. O caso mais notável é o da indústria automobilística, favorecida tanto por benefícios tributários quanto pelo protecionismo comercial. No ano passado, nem os empregos do setor de serviços, em geral de baixa produtividade e pouquíssima exigência de qualificação, foram poupados da crise devastadora.

Mas o desastre de 2014 apenas evidenciou para os menos atentos, ou mais otimistas, uma deterioração econômica iniciada bem antes. Entre 2011 e 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu em média cerca de 2,1% ao ano. Em vários outros países latino-americanos as médias anuais ficaram em pelo menos 4%. Alguns desses países, como Chile, Peru e Colômbia, foram mais atingidos que o Brasil pela queda de preços dos produtos básicos, mas continuam com crescimento maior e inflação menor.

Um componente essencial da devastação econômica, no Brasil, foi a gestão inepta e irresponsável das contas públicas. O desajuste cada vez maior, alimentado pela gastança e pela distribuição mal planejada de favores fiscais, contribuiu para o desequilíbrio geral da economia e para a manutenção de pressões inflacionárias mesmo na recessão. O déficit geral das contas públicas, incluído o custo dos juros, superou no ano passado 9% do PIB, mais que o triplo do observado na maior parte das economias avançadas. Não haverá solução para a crise brasileira sem o reparo desse dano, mas o governo hesita em avançar num sério trabalho de ajuste.

Parte do enorme desajuste das contas públicas derivou de uma política errada de estímulos ao crescimento. Desperdiçou-se muito dinheiro em favores a grupos e setores selecionados, mas isso foi insuficiente para impedir a queda do investimento produtivo.

A queda do varejo em 2015 é mais uma comprovação, especialmente significativa, do fracasso de uma política populista e, portanto, mistificadora, acompanhada de uma dose anormal de incompetência.

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