Fogo-fátuo

Transformaram-se em mero blefe as obsessões piromaníacas pós-impeachment

*José Antônio Segatto, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2016 | 03h02

“Lá vem a nega Luzia/ No meio da cavalaria/ Vai correr lista lá na vizinhança/ Pra pagar mais uma fiança/ Foi cangebrina demais/ Lá no xadrez/ Ninguém vai dormir em paz/ Vou contar pra vocês/ O que a nega fez/ Era madrugada/ Todos dormiam/ O silêncio foi quebrado/ Por um grito de socorro/A nega recebeu um Nero/ Queria botar fogo no morro”

Wilson Batista e Jorge de Castro, ‘Nega Luzia’

Desde o primeiro momento em que o impeachment da então presidente da República, Dilma Rousseff, foi aventando por setores da oposição a seu governo, ilustres dirigentes petistas e líderes de movimentos sociais, seus aliados, passaram a proclamar em alto e bom som que tal desígnio seria intolerável sob todos os aspectos. Caracterizado como golpe, deveria ser obstado por todos os meios possíveis e imagináveis. Os métodos, quaisquer que fossem, de defesa do governo seriam justificáveis, já que se tratava de impedir uma armação contra o poder popular, montada por forças de direita, majoritárias no Congresso Nacional, legitimada pelo Judiciário arbitrário e pela mídia monopolista e reacionária.

Com esse entendimento, as advertências aos propósitos ou tentações golpistas ganharam modulação estridente. O presidente da CUT, Vagner Freitas, prometeu inédita mobilização dos trabalhadores, “para ir às ruas entrincheirados de armas nas mãos”. João Pedro Stédile, dirigente do MST, advertiu que colocaria seu exército de trabalhadores rurais nas ruas. Guilherme Boulos, líder do MTST, ameaçou botar fogo no Brasil. No mesmo diapasão, Lula anunciou que poderia “incendiar o País” – os golpistas haveriam de arder em praça pública ou queimar no fogo do inferno. Os ímpetos sediciosos e as obsessões piromaníacas, que visavam a atemorizar velhos e novos inimigos, transformaram-se, porém, em meros blefes e não encontraram ressonância nem em seus supostos representados.

Tal qual a barafunda promovida pela “nega Luzia”, o caso da reação loquaz ao pretenso golpe da direita por aqueles personagens íntimos do poder, tendo ou não recebido “um Nero”, envolvido ou não “cangebrina demais”, é fato que a suposta resistência se limitou, ao fim e ao cabo, a algumas bravatas, esperneios e espasmos de oratória retumbante. Tirante algumas tentativas de demonstração de força, afirmações de desagravo e prédicas altissonantes de indignação para o público interno, aqui e ali, até mesmo a direção do PT pareceu resignada e – por que não? – aliviada com o desfecho. Parte significativa dos filiados ou coligados, em especial deputados e senadores, governadores e prefeitos, vereadores e comissários, procurou rapidamente salvaguardar sua carreira; muitos até ignoram o governo destituído, fazendo de conta que nada tinham que ver com ele. Alguns dirigentes consideram mesmo que o impedimento da presidente foi uma espécie de tábua de salvação, oportunidade excepcional de unir o partido pela vitimização, além de conveniente para livrá-los do compromisso de sustentar companheira-governante incômoda que só causava desgaste à imagem partidária.

Como explicar que um governo que chegou a ter uma poderosa base aliada no Congresso, com altos índices de popularidade, que parecia contar com o apoio compacto da sociedade civil e estar solidamente incrustado nos aparatos do Estado, repentinamente, viu-se isolado e apeado do mando, abandonado à própria sorte?

A resposta, entendemos, envolve um conjunto complexo de fatores e questões, sobretudo as de natureza política. Entre eles, há alguns que podem ajudar na compreensão desse processo: 1) o inusitado estelionato eleitoral de 2014, quando a coligação PT-PMDB não só camuflou a real situação de crise do Estado e da economia, como prometeu o paraíso e entregou o inferno; 2) o acúmulo de práticas e valores políticos antirrepublicanos, deficitários de ética e democracia, saturados de patrimonialismo e clientelismo; 3) ao contrário do expresso na retórica e no marketing, da implementação de um projeto nacional desenvolvimentista, a economia política dos governos petistas redundou em recessão e, a seguir, numa depressão econômica sem precedentes; 4) o desarranjo da governabilidade, ancorada na aliança PT-PMDB e partidos satélites, organizada e operada por meio da negociação de cargos, da oferenda de verbas e de recompensas políticas e pecuniárias; 5) ao deixar de ser um partido da e para a sociedade civil, o PT, concomitantemente, estatizou e/ou cooptou movimentos sociais, organizações, entidades (CUT, MST, MTST, UNE, etc.) – procedendo dessa forma, imobilizou-os e despojou-os de suas finalidades e quando, alijado do poder, deles necessitou, viu sua capacidade mobilizatória obstada.

Os elementos acima enumerados, juntamente com outros fatos e contingências, acarretaram a corrosão lenta e contínua da credibilidade do governo, conduzindo-o à perda de legitimidade política. Possibilitada, outrossim, pelo fato de o PT não ter sido capaz de conceber e implementar um projeto de hegemonia política. Optou por exercer o poder pelo domínio, desconsiderando as exigências para se habilitar como dirigente. Ao contrário, restabeleceu antiquados métodos de mando das velhas classes dominantes brasileiras: cooptação de parte da sociedade civil e política pelo aliciamento ou pela submissão, mercadejando patrimônio e fundos públicos. Isso criou condições para o revigoramento da cultura política e de forças antidemocráticas, hiperconservadoras e fisiológicas (expressas hoje no “centrão”), que medraram à sombra ou em zonas soturnas do poder petista, alimentadas pelo clientelismo, pelo patrimonialismo e pelo corporativismo.

Apagado o fogo, de seu rescaldo protagonismo capital poderá vir a ter, no processo político reconstituinte, uma esquerda democrática com práxis renovada e com projeto reformista vigoroso, capaz de superar concepções e práticas antidemocráticas, que permita a desobstrução de condutos que dificultam o livre curso da dinâmica democrática.

*Professor titular de sociologia da FCL/Unesp

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