Foi para o espaço

Nenhum programa espacial é uma história ininterrupta de sucessos. Os soviéticos, que saíram à frente na conquista espacial, colecionaram fracassos atrás de fracassos, como se ficou sabendo quando caiu o véu de segredo que cobria essas atividades. Foguetes explodiam na decolagem ou durante o vôo - e experiências científicas perderam-se nesses lançamentos frustrados. Com os Estados Unidos, a única diferença foi que os fracassos eram filmados e transmitidos para o grande público. Nesses dois programas - os mais avançados jamais feitos pelo homem - pessoas perderam a vida, ou nas explosões em solo, ou nas cápsulas e veículos tripulados que explodiram ou não puderam ser recuperados em ordem.Aprendeu-se tanto com o sucesso como com o fracasso. E se hoje os lançamentos e viagens espaciais são uma rotina que quase não provocam mais espanto e curiosidade, é porque os países que se dedicaram à conquista do espaço - e não foram apenas os EUA e a antiga URSS - usaram seus melhores recursos humanos e financeiros para desenvolver tecnologias que acabaram tendo emprego na nossa vida cotidiana. Encararam o desafio com seriedade e perseveraram nesse empreendimento.O Programa Espacial Brasileiro, iniciado na distante década de 1970, foi e está sendo administrado da maneira exatamente oposta à empregada por países, como Índia e China, que adotaram programas idênticos muito depois e estão muito à frente do Brasil.Há mais de uma década, o programa brasileiro tem vida praticamente vegetativa, sustentada por recursos orçamentários escassos que desestimulam a permanência de cientistas e técnicos e não são um incentivo à formação de outros. A última das três malogradas tentativas de lançamento do Veículo Lançador de Satélites (VLS) foi feita há três anos e não se tem idéia de quando e se o programa será retomado. Não há método nem propósito definido numa atividade que deveria ser prioritária para o governo, na área científica e tecnológica.Não surpreendem, portanto, as revelações contidas na reportagem de Eduardo Nunomura, publicada sábado no Estado, sobre os bastidores do lançamento do foguete de pesquisas VSB-30, no Centro de Lançamentos de Alcântara. O foguete foi lançado com sucesso - após adiamentos determinados pelas condições meteorológicas -, mas a sua carga útil, contendo experimentos científicos, não foi recuperada.Esse fato, em si, não seria extraordinário. Em condições normais, um sem-número de fatores pode fazer com que helicópteros, aviões e embarcações encarregadas da recuperação da carga não consigam cumprir sua missão. Mas a não recuperação da carga, no caso do VSB-30, teria sido o corolário das condições que precederam o lançamento do foguete, relatadas na reportagem.Os pesquisadores que perderam seus experimentos fazem estarrecedores relatos, que precisam ser apurados pelas autoridades responsáveis. Por exemplo, havendo uma ''''janela'''' de apenas cinco dias para o lançamento, a Base de Alcântara foi fechada no domingo, para descanso. O coordenador de resgate da carga útil teria entrado em choque com o coordenador-geral da operação, por discordar de uma eventual alteração da rota do veículo. Embora negue o atrito, o fato é que o coordenador do resgate voltou para São José dos Campos antes do lançamento. Sua explicação: ''''Sou vice-diretor de Administração do Instituto de Atividades Espaciais, estava chegando o final do mês e tenho de pagar as contas, precisei voltar.'''' O foguete subiu no dia 19.Além disso, às 5 horas da manhã desse dia os pesquisadores ficaram sabendo por intermédio de um motorista que os servia que o foguete seria lançado naquele dia. E o motorista tinha bons motivos para saber o que aconteceria: ''''Os salgadinhos (para o coquetel comemorativo) foram entregues hoje.'''' E, se não bastasse, houve divergências entre militares e pesquisadores sobre a abertura do pára-quedas da ogiva com a carga útil. Reclamam os pesquisadores que foram feitas apenas cinco tentativas de busca, quando na missão anterior, em 2002, a operação de resgate durou duas semanas.A serem procedentes as reclamações e denúncias dos pesquisadores, a bagunça que é a marca do governo Lula chegou ao espaço.

O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2031 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.