Fora da margem de erro

O segundo turno da eleição presidencial é imprevisível. Por isso se recomenda cautela, devendo-se evitar qualquer tipo de entusiasmo, para um lado ou para outro. Os gregos chamavam tal atitude de phronesis, que normalmente se traduz por prudência ou cautela. E significa orientar-se com cuidado na imprevisibilidade, na particularidade das coisas do mundo.

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2014 | 02h03

Nesse contexto, deve-se ter a maior prudência na reação à divulgação das pesquisas de opinião, pois os institutos erraram, e feio. Há problemas evidentes de metodologia ou de execução que ficaram flagrantes. Os números dissociaram-se da realidade. O argumento, por exemplo, do diretor de um dos institutos mais importantes, de que eles medem apenas tendências é para incautos ou desavisados. Se assim fosse, não deveriam alardear que a sua margem de acerto se faz, por exemplo, num universo de 2 mil entrevistas, com dois pontos para mais ou para menos. Nem tal margem de erro correspondeu à realidade.

A observação faz-se necessária porque os parâmetros de orientação a partir de pesquisas perderam completamente a credibilidade. Seus números devem ser vistos com cuidado. Deixaram de constatar mudanças importantes que estavam ocorrendo. Seria necessário, isso sim, um reconhecimento dos erros, uma pesquisa séria sobre por que ocorreram, e não tentativas reiteradas de mascarar a realidade.

Poderíamos considerar os erros em pesquisas eleitorais e de opinião como sendo de duas ordens: erros amostrais e erros não amostrais.

Erros amostrais são os originados do desenho da amostra da pesquisa. A amostra, vale lembrar, precisa ser representativa da população que está sendo pesquisada. No Brasil, para a construção da amostra das pesquisas eleitorais utilizam-se cotas. As entrevistas seguem critérios de seleção de entrevistados, como sexo, faixa etária, escolaridade, região e renda familiar mensal. Um tipo de erro amostral seria, por exemplo, atribuir maior peso aos entrevistados da Região Sudeste do País. Se uma amostra correta, que seja representativa da população, sinaliza que é preciso aplicar 500 entrevistas nessa região e determinado instituto aplica 550, isso significa que a amostra se torna desproporcional à população pesquisada, redundando em erro.

Para evitar erros amostrais é preciso que um estatístico produza a amostra baseando-se em dados estatísticos oficiais, entre os quais os resultados do Censo de 2010 e da Pnad (IBGE) mais recente.

Erros não amostrais são os que poderíamos denominar de execução. Vejamos alguns:

Questões enunciadas de forma errada, seja por apresentarem dúvidas sobre sua interpretação ou por serem tendenciosas em relação às respostas possíveis.

A ordem das perguntas dos questionários também pode contaminar as respostas dos entrevistados.

Pesquisadores mal treinados, sem experiência e ávidos por um "trabalho extra" em períodos eleitorais. Institutos precisam contratar pesquisadores, e não "perguntadores".

A inflação do mercado de pesquisas em períodos eleitorais, com escassez de mão de obra qualificada, leva os institutos a contratar pessoas sem o mínimo domínio dos procedimentos metodológicos necessários para aplicação de um questionário de pesquisa eleitoral.

No período eleitoral os institutos, além de trabalharem com falta de pesquisadores qualificados, também deparam com a escassez de tempo. Quase 3 mil entrevistas - às vezes, muito mais - precisam ser feitas em 2 dias, ou em até em dia e meio. Trata-se, além de uma enorme operação logística, de uma grande possibilidade de que fraudes ocorram. Acossados pelo tempo, os próprios pesquisadores, sem encontrar o perfil desejado, podem muito bem "inventar" questionários.

A hipótese de questionários serem inventados é extremamente razoável, uma vez que não haveria tempo necessário para a conferência, conforme sustenta a literatura especializada, de um mínimo de 20% dos questionários aplicados.

Essa conferência pode ser realizada in loco, por fiscais, ou por telefone, sendo esta última modalidade a mais comum. De posse dos questionários, os conferencistas ligam para confirmar se a pessoa foi mesmo entrevistada e se suas informações sobre perfil socioeconômico são coerentes com o que está declarado no questionário.

A conferência é um processo demorado porque, em muitos casos, é preciso tentar contato várias vezes com o entrevistado selecionado para conferência. Não é, poderíamos dizer, trabalho de uma tarde ou um dia. Leva tempo, conferindo às pesquisas maior confiabilidade e certeza de que fraudes não ocorreram durante o processo de aplicação dos questionários.

Em períodos "normais" esses erros de execução tendem a ser menores, pois há mais tempo para fazer as pesquisas, realizar as conferências e, ainda, treinar novos pesquisadores.

Mas durante o período eleitoral é diferente. Há falta de tempo, escassez de mão de obra qualificada e urgência em divulgar os resultados. Essas variáveis fazem com que a qualidade das pesquisas eleitorais tenda a diminuir.

Por fim, uma nota: os eleitores também podem ser "culpados" pelos erros, uma vez que sempre se mostra possível a mudança de opinião a partir de "ondas" que ocorrem, por exemplo, de um dia para outro. As ondas, contudo, quase se transformaram em verdadeiros tsunamis, dados os erros das pesquisas. Mas isso parece ser menos válido para os levantamentos de tipo boca de urna, em que o eleitor já votou.

Mas nada disso deve servir de ensejo para que se estabeleça qualquer restrição à divulgação de pesquisas. A censura deve - ou deveria - ser coisa do passado. Trata-se de um problema que o próprio mercado resolve, pois a perda de credibilidade dos institutos incide diretamente sobre eles. A sua perda de imagem é algo grave.

*Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br 

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