Fugindo das compras

Com desemprego alto, dinheiro curto, crédito escasso e inflação ainda pesando no orçamento, o consumidor continua muito cauteloso antes de pôr a mão no bolso

O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2016 | 03h07

Com desemprego alto, dinheiro curto, crédito escasso e inflação ainda pesando no orçamento, o consumidor continua muito cauteloso antes de pôr a mão no bolso. Ele pode até estar menos pessimista do que há alguns meses, como indicam algumas sondagens. Mas ainda prefere a moderação e, principalmente, evita endividar-se. Quem conseguiu sair do atoleiro da inadimplência tende a fugir do risco, pelo menos enquanto o ambiente econômico for meio enevoado. Em julho, o volume de vendas do varejo restrito, onde se compram bens de consumo corrente, móveis e eletrodomésticos, foi 0,3% menor que em junho e 5,3% inferior ao de igual mês do ano passado.

Ampliando-se a lista com veículos, motos, componentes e também com material de construção, chega-se ao varejo ampliado. Aí os números são piores, com recuo de 0,5% em relação a junho e de 10,2% quando a comparação é com julho de 2015. Nos primeiros sete meses deste ano o volume vendido ficou 9,4% abaixo do contabilizado de janeiro a julho do ano anterior. No confronto de períodos de 12 meses o recuo foi de 10,3%.

Começou mal o terceiro trimestre. A melhora quase insignificante da produção industrial, com aumento de 0,1% de junho para julho, pouco afetou o cenário. O pequeno aumento de atividade em alguns meses serviu basicamente para eliminar a maior parte do estoque acumulado. O volume produzido em julho ainda foi 6,6% menor que o de um ano antes. A queda em 12 meses ficou em 9,6%. Até aí houve pouco ou nenhum estímulo para investir em máquinas e equipamentos ou para preservar o quadro de pessoal. As demissões têm continuado tanto na indústria como em outros setores.

No trimestre de maio a julho o desemprego chegou a 11,6% da força de trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de pessoas desocupadas chegou a 11,85 milhões, com acréscimo de 3,22 milhões em relação ao período correspondente de 2015. Nesse intervalo, o rendimento médio real das pessoas ocupadas passou de R$ 2,05 mil por mês para R$ 1,98 mil. Mas essas foram as pessoas – ocupadas – de maior sorte.

As vendas do comércio refletiram, naturalmente, o desemprego crescente e o empobrecimento das famílias e também o aperto e o encarecimento do crédito. Com a inflação ainda elevada, o Banco Central tem mantido em 14,25% os juros básicos da economia.

As taxas cobradas pelos bancos comerciais nos financiamentos à indústria, ao comércio e aos consumidores são muito maiores. Além disso, os bancos têm sido muito seletivos na concessão de empréstimos, para reduzir o risco de inadimplência.

Nenhuma surpresa, portanto, quando se observa a enorme redução das vendas de bens de consumo dependentes de algum tipo de financiamento. Em 12 meses as lojas de móveis e de eletrodomésticos venderam 15,8% menos que no período imediatamente anterior. No caso das distribuidoras de veículos, motos e componentes a queda chegou a 17,7%. A redução de incentivos fiscais ao consumo de bens de alto valor também contribuiu para esse efeito.

Como previam as pessoas sensatas, uma política de crescimento em grande parte baseada em estímulos ao consumo acabaria num enorme fracasso. No Brasil, esse e outros erros do governo petista resultaram na maior recessão desde a grande crise dos anos 1930. Irrealismo e incompetência combinaram-se com a irresponsabilidade na produção do desastre ainda enfrentado pelos brasileiros. O esforço de saída apenas começou e o trabalho ainda será muito grande.

Entre janeiro e julho foram requeridas 387 recuperações judiciais por empresas do comércio. O número foi 106,9% maior que o de um ano antes, 187. O setor foi o campeão tanto em novos casos quanto em aumento. Na indústria o número cresceu 53%, de 166 para 254. Também esses dados compõem a herança desastrosa do governo petista.

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