Fundo do poço, o bom sinal

A economia bateu no fundo do poço. Quando confirmada, esta será a próxima boa notícia no Hemisfério Norte - e será comemorada, sem dúvida, em todo o mundo. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, quase chegou lá. Segundo ele, há "sinais de estabilização em nível muito baixo, depois de um primeiro trimestre significativamente mais fraco que o esperado". Em linguagem mais simples: a situação parece estar parando de piorar. Um dia antes, seu colega americano, Ben Bernanke, havia sido um pouco mais positivo. Segundo ele, a reação do consumo, a melhora no setor imobiliário e o fim da liquidação de estoques deverão permitir um início de recuperação dos negócios ainda este ano. Trichet não pôde ir tão longe: reativação, só em 2010. Ele comentou a situação europeia logo depois de anunciado, na quinta-feira, o novo corte de juros básicos na zona do euro, de 1,25% para 1% ao ano. Mas o esforço de reanimação dos negócios será ampliado, em breve, com medidas de outro tipo, anunciou na mesma ocasião o presidente do BCE. Na Europa, como nos Estados Unidos, o arsenal usado habitualmente pelos bancos centrais está praticamente esgotado. O Federal Reserve (Fed) já baixou os juros para a faixa entre zero e 0,25%. O passo seguinte foi partir para a compra de títulos públicos em circulação, para injetar dinheiro no mercado. O BCE fará algo semelhante. Comprará até 60 bilhões de covered bonds, um tipo de papel lastreado em empréstimos hipotecários ou em dívidas do setor público. O Banco da Inglaterra (BoE, o banco central inglês) tomou o mesmo rumo. Resolveu, também na quinta-feira, manter a taxa básica em 0,5% e ampliar de 75 bilhões para 125 bilhões de libras as compras de títulos públicos disponíveis no mercado. No Reino Unido, a decisão de aumento das compras foi recebida com manifestações de surpresa, porque o anúncio, segundo fontes do setor financeiro, só era esperado para o próximo mês. O próximo relatório do BOE sobre a economia britânica, segundo se especulou, deve mostrar dados piores do que aqueles conhecidos até agora. Se essa suposição for confirmada, não haverá grande surpresa. No começo da semana, a Comissão Europeia divulgou suas novas estimativas. Em janeiro, previa-se para a economia do bloco uma contração de 1,9% em 2009. Agora se projeta uma redução de 4% para o produto bruto dos 27 componentes da União Europeia. No próximo ano, de acordo com os novos cálculos, ainda deverá ocorrer uma contração de 0,1%. O ritmo de atividade poderá ser maior que esse no fim de 2010, mas a variação média do ano ainda será negativa. A revisão dos dados não altera um ponto essencial das estimativas correntes desde o fim do ano passado: a recessão será mais longa na Europa do que nos Estados Unidos. Mesmo que haja alguma recuperação nos dois lados do Atlântico Norte, no próximo ano, o ritmo será mais acentuado nos Estados Unidos. Será uma grande surpresa qualquer evolução diferente dessa. Mas a recuperação econômica dos Estados Unidos não dependerá apenas dos fatores indicados pelo presidente do Fed. A melhora do consumo, a reativação do setor financeiro e, portanto, a movimentação das indústrias serão determinadas, em grande parte, pela normalização do mercado financeiro. O setor bancário americano ainda está enfraquecido. Os testes de resistência aplicados pelo governo a 19 dos maiores bancos produziram resultados melhores que os previstos - ou, mais precisamente, menos maus do que os esperados. Isto pode animar as bolsas, mas o problema não estará superado enquanto os bancos não conseguirem levantar o capital necessário, de acordo com a indicação dos testes, e não for restabelecida a confiança indispensável às operações interbancárias. Os testes contribuíram para tornar o cenário mais claro e para definir as necessidades de capitalização. Clarear o ambiente é um passo importante para a normalização dos negócios, mas a solução dos problemas vai consumir mais tempo. Países como o Brasil, com o sistema financeiro saudável e fundamentos econômicos em ordem, poderão recuperar-se mais velozmente que os do mundo rico. Mas a recuperação, embora mais veloz, só deve começar para valer quando a economia do mundo rico estiver saindo da recessão.

, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

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