Ganhando no grito

O governo do presidente em exercício Michel Temer começa a dar preocupantes sinais de estar disposto a fazer mais concessões do que a prudência recomenda ao lidar com “movimentos sociais” que nada mais são do que grupelhos de agitadores, cujas causas são mero pretexto para a desordem social e a subversão do regime capitalista e democrático. Não há cálculo político que justifique qualquer demonstração de tolerância com gente que não tem interesse em ajudar o País e, em muitos casos, deveria estar prestando contas à Justiça.

O Estado de S. Paulo

06 Junho 2016 | 03h00

É lícito perguntar, por exemplo, o que fazia José Rainha Júnior, ex-líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), no gabinete presidencial no dia 1.º passado, recebido por Temer como legítimo interlocutor da causa dos sem-terra. Não é preciso consultar arquivos ou prontuários policiais para saber que Rainha é notório baderneiro, que fez da invasão de propriedades e do vandalismo um meio de vida.

Em junho de 2015, ele foi condenado pela 5.ª Vara Federal em Presidente Prudente a 31 anos e 5 meses de prisão por crimes de extorsão, formação de quadrilha e estelionato. Rainha está recorrendo da sentença, prolatada com base em investigação segundo a qual ele e seus comparsas usaram agricultores sem terra como massa de manobra para invadir fazendas e exigir dos proprietários dinheiro para que plantações não fossem queimadas. O Ministério Público afirmou também que o bando desviou em proveito próprio cestas básicas destinadas a assentamentos.

Foi esse homem que Temer recebeu em seu gabinete para discutir questões administrativas. Rainha é o mesmo que, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, não cumpriu os acordos propostos para que o MST desse uma trégua em suas invasões. No mês passado, a Frente Nacional de Lutas, liderada por Rainha, invadiu a fazenda de um amigo de Temer em Duartina (SP), para protestar contra o governo.

Nada disso parece ter importância. Segundo o deputado Paulinho da Força (SD-SP), que teve a ousadia de levar Rainha ao encontro com Temer, o presidente em exercício aceitou discutir a eventual volta do Ministério do Desenvolvimento Agrário, corretamente extinto na reforma administrativa que ele promoveu ao assumir. Para completar, a Secretaria de Agricultura Familiar, criada por Temer para atender aos sem-terra, deverá ter entre seus funcionários vários indicados por Rainha e apadrinhados por Paulinho da Força. É difícil de entender o que Temer e o País têm a ganhar com esse tipo de arranjo. E muito mais difícil é não entender por que alguém como Paulinho da Força apadrinha gente que vive à custa do governo para invadir propriedades privadas.

Também é difícil de entender por que o ministro das Cidades, Bruno Araújo, decidiu voltar atrás e retomar as contratações de unidades habitacionais da modalidade “Entidades” do programa Minha Casa, Minha Vida, corretamente suspensas no início do novo governo. Trata-se de inaceitável concessão a “movimentos sociais”, como o violento Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que se queixaram de ter perdido o acesso ao dinheiro público com o qual deveriam construir e entregar casas a pessoas de baixa renda. Essa modalidade do Minha Casa se tornou preciosa boquinha para esses grupelhos, além de funcionar como mecanismo de cooptação, ao privilegiar correligionários na seleção de candidatos à casa própria.

O recuo do governo ocorreu no mesmo dia em que o notório Guilherme Boulos, líder do MTST, mandou sua turma invadir a sede da Presidência da República em São Paulo para exigir a volta do programa. Embora o governo já estivesse planejando retomar essa modalidade do Minha Casa antes do protesto, é claro que Boulos saiu a cantar vitória. Para os efeitos de propaganda desejados pelos arruaceiros, ficou a sensação de que Temer pode ser facilmente subjugado. A única maneira de reverter essa má impressão é fazer cumprir a lei contra protestos violentos e, acima de tudo, parar de fazer concessões a esses obstinados inimigos da democracia.

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