Ganhos rápidos, mas incertos

Um comércio previsível é importante para o Brasil

O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2018 | 03h30

As mais recentes estimativas do governo para as exportações brasileiras neste ano parecem contradizer as projeções que passaram a predominar depois da deflagração da disputa comercial entre Estados Unidos e China. Uma das consequências dessa disputa seria a queda dos preços das commodities, das quais o Brasil depende fortemente para assegurar os expressivos saldos comerciais registrados nos últimos anos. Outra seria a desaceleração do comércio e da economia mundiais, com reflexos sobre os volumes exportados pelo País. Nenhum desses efeitos perniciosos da disputa entre os Estados Unidos e a China está descartado, mas, pelo menos até agora, o comércio exterior brasileiro vai indo bem.

Desafiando a onda protecionista que ameaça se formar no mundo, as exportações brasileiras de 2018 devem ser uma das maiores dos últimos 30 anos, prevê a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Num dos cenários mais prováveis desenhados pela Secex, o Brasil exportará neste ano perto de US$ 240 bilhões, cifra superada apenas em três anos: 2011, quando as vendas externas atingiram o recorde de US$ 255 bilhões, 2012 e 2013. No ano passado, elas somaram US$ 217 bilhões. Até o fim de outubro, o total exportado pelo País havia alcançado US$ 199 bilhões. Mantida a média semanal observada até agora, o total do ano seria, de fato, pouco superior a US$ 240 bilhões.

O secretário da Secex, Abrão Miguel Árabe Neto, atribui o bom desempenho das vendas externas à alta dos preços de commodities com grande peso na pauta de exportações e também ao aumento dos volumes vendidos. Também contribuiu para o bom desempenho das vendas para o exterior a decisão das empresas de dar maior ênfase às exportações por causa das dificuldades ainda prevalecentes no mercado interno.

A disputa comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo tem produzido efeitos positivos para a balança comercial brasileira. Ela tem alterado o fluxo de importantes itens da pauta de exportações, como a soja. Por causa das sobretaxas impostas pela China a diversos produtos de origem americana, em retaliação à imposição, pelo governo do presidente Donald Trump, de medida semelhante a produtos chineses, o Brasil aumentou sua fatia no mercado chinês de soja. Este é o principal produto agrícola que os EUA vendem para a China.

Há uma década, 37% da soja importada pela China era de origem americana e 34%, brasileira. No ano passado, a soja do Brasil abastecia mais de 50% do mercado chinês. Essa participação deve ter crescido neste ano. Também as exportações brasileiras de carne suína foram beneficiadas pela disputa entre EUA e China.

Em prazo mais longo, porém, a disputa pode ter efeitos diferentes para o comércio exterior brasileiro. Alguns ganhos setoriais alcançados até agora podem ser revertidos pelos riscos gerados pela disputa entre as duas grandes potências. Um deles, apontado pelo titular da Secex, é o eventual desvio de comércio de produtos chineses e americanos para outros mercados, como o Brasil ou aqueles em que é forte a presença de produtos brasileiros, que perderiam espaço.

Outro risco é a vulnerabilidade a que o Brasil fica exposto com as incertezas do comércio mundial. O acirramento da disputa entre os EUA e a China poderia levar à imposição, por um dos dois ou por ambos os países, de sobretaxas para produtos de diferentes origens.

Um comércio internacional previsível é importante para a o Brasil manter sua posição no mercado mundial e tentar ganhar mais espaço nele. No longo prazo, por isso, as incertezas e a imprevisibilidade do quadro mundial são ruins para o País. Além disso, o Brasil tem pouco ou nenhum peso nas negociações entre as grandes potências, o que o torna vulnerável, dada sua condição de grande exportador de produtos agrícolas e de minérios.

Por fim, se a disputa se prolongar, afetará o crescimento da economia mundial e, consequentemente, a demanda de bens exportados pelo Brasil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.