Garantir a sobrevivência durante um desastre

A frequência e a intensidade dos desastres naturais vêm crescendo nas últimas décadas. Neste ano de 2010, um terremoto catastrófico devastou o Haiti, outro ainda mais forte sacudiu o Chile e um terceiro provocou destruição na província chinesa de Qinghai. Os desastres decorrentes de tempestades tropicais e fortes chuvas vêm aumentando rapidamente. O Paquistão sofreu danos econômicos e numerosas mortes por causa das inundações, consideradas as piores em várias décadas.

Vinod Thomas e Ronald S. Parker, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2010 | 00h00

As recentes calamidades também desencadearam esforços emergenciais para debelar os problemas que punham em risco a vida dos sobreviventes. Aqui reside uma lição que deve ser considerada com toda a seriedade. Muitas vezes não foi possível prestar o socorro de emergência porque as instalações necessárias para oferecer os devidos cuidados haviam deixado de funcionar ou os seus serviços estavam inacessíveis. Pouca atenção é dada à importância de assegurar o essencial para a sobrevivência durante os desastres - sobretudo o suprimento de água potável e a prestação de primeiros socorros.

Preparar os assentamentos humanos para enfrentar desastres é um processo contínuo. Podemos, contudo, alcançar muito no futuro imediato, tornando as instalações vitais, como hospitais e abrigos de emergência, mais resistentes a desastres, com o fornecimento ininterrupto de energia elétrica, rotas de acesso bem protegidas, abastecimento de água potável e saneamento. Em demasiadas localidades, os recursos físicos essenciais para responder com eficácia a desastres estão ligados a redes que muito provavelmente não funcionarão.

No Haiti, no Chile e em outros países não foi possível suprir de água potável as vítimas em tempo razoável e os prontos-socorros falharam quando mais se precisou deles. A capacidade de empreender ações rápidas para oferecer os cuidados mais críticos também produz um efeito cascata sobre a recuperação. Nos lugares em que se mantém uma conexão mínima com o atendimento médico de emergência e onde o fornecimento de água não é cortado, a reconstrução é bem mais fácil.

É lamentável que a incidência e a gravidade dos desastres estejam aumentando exatamente no momento em que cresce rapidamente a densidade demográfica em muitas áreas urbanas vulneráveis. Apesar do aumento da densidade, às vezes os estragos podem ser relativamente pequenos, mesmo em áreas densamente povoadas, quando são tomadas medidas preventivas eficazes. No Chile, o nível relativamente baixo de danos em face da gravidade do abalo sísmico é do interesse de todos. Em outras partes do mundo também vislumbramos sinais animadores de que as autoridades estão percebendo a importância da prevenção enquanto se ocupam do socorro.

No Brasil, em 1988, chuvas torrenciais acima dos níveis normais afetaram o Rio de Janeiro e provocaram grandes inundações, deixando 289 mortos, 18.560 desabrigados e grandes danos infraestruturais. Em resposta, o Banco Mundial financiou a construção de diques para controlar as enchentes e obras para melhorar o escoamento, o que levou a um aumento da resiliência: após um volume de chuvas semelhantes em 1996, as áreas que teriam sofrido grandes inundações enfrentaram apenas a inconveniência de pequenos alagamentos. Mas não foram tomadas providências para limpar e manter os sistemas de escoamento e drenagem de águas pluviais e, infelizmente, os benefícios obtidos com os sistemas de proteção construídos a um alto custo foram por água abaixo. Em abril de 2010, quando o Rio de Janeiro foi atingido por fortes inundações e deslizamentos, novamente mais de 200 pessoas morreram e mais de 15 mil pessoas ficaram desabrigadas, com a estimativa dos estragos causados pelas inundações chegando a US$ 13,3 bilhões (cerca de R$ 23,2 bilhões).

Embora as construções de baixa qualidade sejam um dos principais motivos pelos quais se perdem tantas vidas nos países em desenvolvimento quando ocorrem desastres, as experiências na Colômbia e na Turquia com códigos que regulamentam a construção de estruturas resistentes a terremotos e a fiscalização das normas de construção devem produzir muitos frutos. Ademais, em todo o mundo a melhoria do planejamento do uso da terra tem-se mostrado essencial para que as pessoas não construam suas casas em áreas de risco.

Cerca de 50 países em desenvolvimento enfrentam terremotos, deslizamentos, inundações, furacões e estiagens, embora muitos deles aparentemente ainda não tenham percebido que esses episódios tornarão a acontecer. As instituições internacionais não veem esses riscos como uma ameaça sistemática à assistência por eles prestada, e quase a metade dos países que tomaram empréstimos do Banco Mundial em resposta a eventos como esses não tratou da prevenção/redução de desastres nos seus planos de desenvolvimento.

Isso precisa mudar. Daqui a alguns meses, a atenção do mundo não estará mais voltada para os desastres naturais (quer dizer, até que o próximo ocorra). Tão logo a tragédia sai da primeira página dos jornais, os doadores internacionais, como os países, não conseguem manter seu envolvimento nos esforços de prevenção. Esta triste realidade é mais um motivo para visar o objetivo mais fácil de ser atingido: no momento de reconstrução, as instalações vitais para responder a uma crise precisam estar ligadas, invariavelmente, a redes que não falharão. Assim, quando a terra tremer ou as águas subirem, essas redes cruciais resistirão aos desastres e as pessoas atingidas não precisarão entreolhar-se desesperadas, enquanto estiverem lutando pela sua sobrevivência.

RESPECTIVAMENTE, DIRETOR-GERAL E CONSULTOR SÊNIOR DO GRUPO DE AVALIAÇÃO INDEPENDENTE DO BANCO MUNDIAL

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