Gente não é problema

Nunca a informação foi tão acessível quanto agora. Mas ainda continua sendo difícil ver além dos dados. Nossa avaliação é sempre bastante frágil. Quem diria, por exemplo, antes da crise imobiliária nos EUA, que os analistas financeiros estavam mal informados? Ao contrário, eles estavam munidos, em tempo real, de muitíssimos dados. Pouquíssimos, no entanto, vislumbraram o que estava por vir. Depois de ocorrer, a pergunta era natural: como é que não vimos isso?

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2014 | 02h06

Por que se dá esse fenômeno? A realidade parece esconder-se, trapacear. Talvez a dificuldade esteja nessa informação em tempo real. A proximidade com os fatos deixa-nos vulneráveis.

Mas não é apenas a falta de distanciamento da informação. Às vezes nos enganamos por anos, por décadas. Por exemplo, especialmente a partir dos anos 1960 veio à tona com grande força a preocupação demográfica. Consolidou-se a leitura unívoca de que o crescimento populacional era um problema a ser combatido. A pobreza e a miséria no mundo estavam de certa forma mais próximas, tornavam-se mais conhecidas. Imagens televisivas dos países extremamente pobres pareciam gritar: o mundo não comporta mais gente, falta alimento. E parecia urgente a necessidade de uma guinada. Acrescentava-se também a consciência ecológica. A presença humana causava - quase como uma lei física - problemas ambientais. O mundo parecia ser uma casa pequena para tanta gente. Diminuir o número de habitantes, ou ao menos não crescer tão rapidamente, apresentava-se como uma questão de sobrevivência.

Era a cultura de uma época. Duas décadas antes não se via assim. No debate sobre a reconstrução da Europa no pós-guerra, o crescimento da população não era visto como problema, ao contrário. Já nos anos 60, ao avaliar o desenvolvimento dos países latino-americanos, a demografia estava na ordem do dia. Objetivamente, a Europa em 1945 era mais densamente povoada que a América Latina dos anos 60. No entanto, neste lado do planeta o número de pessoas era encarado como um problema; lá, não.

Essa visão transcendeu os anos 60 e nas décadas seguintes era lugar-comum criticar o crescimento populacional. Chegou até agora. Até quase agora, para ser exato. No apagar das luzes da década passada, sem grande estardalhaço, passou-se a falar o oposto. Aparecia na mídia a expressão "janela demográfica". Ao contrário de todas as visões anteriores, a população jovem tornava-se um aspecto positivo. Passava a ser considerada um valioso ativo dos países.

Qual foi a grande mudança? Surgiu uma nova tese acadêmica? Não. Apenas passou a ser evidente demais que os países cuja população ativa - leia-se população jovem - era proporcionalmente maior estavam em crescimento; já os outros, não. Na década de 50 a China tinha o tamanho da Europa. Hoje o velho continente, limitado na sua capacidade de renovação, está mergulhado em assombrosa crise. A China, não obstante sua enorme fatura social, é a grande potência do terceiro milênio.

Mas vamos à experiência da Rússia. Estudo patrocinado pelas Nações Unidas mostrou que a população do país poderá encolher dos atuais 142 milhões de pessoas para 100 milhões até 2050. A sensível queda da população pode ter diversos impactos na economia russa. Economistas estimam que a redução da força de trabalho resultará na queda da produção econômica, provocando um impacto direto no seu produto interno bruto.

Uma população em declínio também poderá afastar investidores internacionais, interessados no potencial do consumo interno. "Onde o investidor prefere aplicar recursos? Na Índia ou na China, onde a renda per capita cresce junto com a população, ou na Rússia, onde a renda per capita vem crescendo, mas o mercado consumidor vem encolhendo?", indaga Markus Jaeger, economista do Deutsche Bank.

A previdência social também poderá vir a sofrer com a crise demográfica, pondera Jaeger. "Se a força de trabalho não for renovada, não haverá pessoas suficientes para gerar a renda necessária para pagar as pensões de aposentados. Isso pode prejudicar as políticas fiscais e econômicas e gerar tensões políticas", estima.

Ainda segundo Jaeger, em termos demográficos a Rússia está na pior posição em relação aos outros países do Brics. O economista detalha que na Índia a população vem crescendo rapidamente, enquanto na China a força de trabalho vai continuar se expandindo até 2015, data a partir da qual a população começará a envelhecer, mas não deverá declinar. Já o Brasil, observa ele, se beneficiará de um aumento de 20% na força de trabalho até 2025. É a força da inércia.

Sociedades envelhecidas não têm capacidade de ousar e de inovar. Que idade tinha Steve Jobs quando se lançou na fascinante aventura da Apple? Bill Gates não era um cinquentão quando concebeu a Microsoft. Os velhos, carregados de experiência e maturidade, são bons gestores. Mas o motor de um país é a ousadia. E o atrevimento não tem cabelos brancos.

O Brasil tem enfrentado a turbulência global graças à sua janela demográfica: uma população em idade ativa desproporcionalmente grande. Quando o mundo mergulhava na dura crise econômica, que ainda perdura, o ex-presidente Lula, apoiado em sua aguçada intuição e em seu sentido de oportunidade, conclamou os brasileiros a um forte exercício de consumo. O apelo deu certo. O tamanho e a juventude do mercado brasileiro mantiveram a saúde econômica do País.

Ter tomado consciência apenas agora nos põe em outro problema: conseguir enriquecer como país antes de envelhecer. Estamos numa corrida contra o tempo. Queremos sucumbir ao inverno demográfico ou estamos dispostos a abrir a janela da renovação? Gente não é problema. É solução.

*Carlos Alberto Di Franco é doutor em comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor do departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais. E-mail: difranco@iics.org.br.

 

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