Globalização em risco

Defensores da globalização alertam para o risco de retrocesso na integração dos mercados

O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2016 | 05h05

Defensores da globalização alertam para o risco de retrocesso na integração dos mercados. Depois de funcionar durante décadas como um dos principais motores do crescimento econômico e da criação de empregos, o comércio internacional perdeu fôlego e deve continuar em marcha lenta por mais algum tempo, segundo projeções de especialistas. O intercâmbio de bens e serviços deve avançar em volume 2,3% neste ano e 3,8% em 2017, de acordo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Enquanto isso, a economia global deve crescer 3,1% e 3,4%. O menor dinamismo das trocas é atribuível a mais de um fator. Um deles é certamente o protecionismo. Mas o quadro pode piorar. As tendências protecionistas e contrárias à integração ganharam força recentemente e se tornaram mais barulhentas e bem mais eficazes.

O abandono da União Europeia pelo Reino Unido foi em grande parte um reflexo de pressões desse tipo. Nos Estados Unidos, a resistência à integração marcou, em proporções diferentes, as campanhas dos dois principais candidatos. Mas o grande porta-voz dessa tendência foi o republicano Donald Trump, com promessas de revisão ou de abandono de acordos internacionais e discursos contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). As pressões contrárias à liberalização dos mercados e à globalização do sistema produtivo foram apontados na reunião do FMI, na semana passada, como uma das grandes ameaças à recuperação da economia mundial.

“A economia global beneficiou-se tremendamente da globalização e da mudança tecnológica”, afirmaram, em comunicado, os ministros do Comitê Monetário e Financeiro Internacional, órgão responsável pela definição de rumos para a instituição. “No entanto”, acrescentaram, “as perspectivas são crescentemente ameaçadas por políticas voltadas para dentro, incluídos o protecionismo e as reformas paralisadas. Nós nos comprometemos a formular e implementar políticas para enfrentar as preocupações daqueles deixados para trás e para garantir que todos tenham oportunidade de se beneficiar da globalização e da mudança tecnológica.”

Advertência e compromisso foram acompanhados, portanto, de um diagnóstico apenas esboçado: embora tenham produzido ganhos enormes, a globalização e o avanço da tecnologia afetaram de forma desigual os envolvidos no jogo. Por isso, a busca de formas de crescimento econômico mais inclusivo e mais igualitário foi também um grande tema.

O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, mencionou o “sentimento de que os ganhos do comércio são distribuídos injustamente (...) e que os custos do ajuste à liberalização comercial caem principalmente sobre a classe média”.

Essa percepção dos fatos pode ser em boa parte distorcida. Numa fase de baixo crescimento, de mudanças no sistema produtivo e de perda de status para grupos mais ou menos amplos, a tendência de atribuir os problemas à concorrência estrangeira e a redução das oportunidades à presença de imigrantes pode ser muito forte. Mas algum problema ocorre e é preciso diagnosticá-lo e enfrentá-lo com eficiência. Frear a globalização, quebrando, por exemplo, as cadeias internacionais de valor, será uma resposta errada. Seria tão tolo quanto tentar defender o emprego destruindo os sistemas de informática. Bem organizado, o comércio continuará sendo um impulsionador da criação de riquezas.

Em Washington, na semana passada, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, endossou as preocupações diante do risco de retrocesso da globalização. Mas o governo, para ir além da retórica, precisará trabalhar seriamente por uma participação maior do País no comércio de bens e serviços e por uma inclusão mais ampla nas cadeias de produção. Também será preciso, naturalmente, cuidar mais seriamente de educação e tecnologia. Tudo isso será o oposto da mistura de protecionismo e terceiro-mundismo do governo petista. Se a orientação mudar, o País entrará no século 21.

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