Governo desacreditado

O que de pior aconteceu para o presidente Lula não foi o novo apagão aéreo duas horas depois de sua tardia aparição em rede nacional, na noite de sexta-feira, quando anunciou, mais tardiamente ainda, o pacote de medidas para debelar a crise de 10 meses na aviação comercial brasileira. O pior foi a desmoralização do governo, pelo descrédito generalizado da opinião pública em relação à sua capacidade de levar a termo as decisões anunciadas e à sua eficácia para debelar a pane que tomou conta do setor, como nunca antes se viu na história deste país - a ironia é inevitável. E não se acusem os céticos de torcer contra, por um imaginário desejo de se desforrar do esquema lulista de poder, querendo imitar pelo avesso o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia e um seu subordinado ao acharem que o noticiário isentava o Planalto de qualquer responsabilidade pela catástrofe de Congonhas.Pois são de todo procedentes as razões para duvidar de que o governo será capaz de implementar as iniciativas aprovadas pelo Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac). O que deixa a sociedade pessimista é a seqüência de fracassos da administração federal no campo da infra-estrutura, que está toda ela em estado igual ou pior que o do setor aéreo. Desde o primeiro dia do primeiro mandato do presidente Lula até hoje, literalmente, nada do que foi prometido para o setor se cumpriu. Sob um chefe de Executivo conhecido por sua imensa dificuldade para executar os planos anunciados um depois do outro com foguetório, autolouvação e, não raro, empáfia, é como se as obras e a modernização dos sistemas de gestão se materializassem a golpes de retórica - a palavra como substituto do trabalho, da persistência e da capacidade de fazer que se esperam do ocupante do mais alto cargo da República.Leia-se o que disse a este jornal, em entrevista publicada na edição de domingo, um dos grandes "fazedores" do Brasil contemporâneo, o engenheiro Eliezer Batista, ex-presidente da Vale do Rio Doce, para se alcançar o xis da questão do colapso do lulismo em matéria de permitir, em última análise, que o País funcione. "Para fazer uma coisa, por mais simples que seja, tem de ter experiência", ensina Batista, aos 83 anos. "Por que não se pode fazer isso (referindo-se à inexistência de um trem de alta velocidade ligando São Paulo a um aeroporto como Viracopos)? É falta de dinheiro? Não, falta sabe o quê? Nós precisamos de mais estadistas, homens que pensem nas gerações seguintes, não só em política." Pois foi pensando em política que o inexperiente Lula - o qual, na irrefutável constatação de Orestes Quércia, em 1994, "nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca" antes de ambicionar o Planalto - escalou a tripulação desse Jumbo de irresponsabilidade e submissão aos interesses das companhias aéreas chamado Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).Na sexta-feira, o presidente se comprometeu a fortalecer esse órgão regulador e fiscalizador da área. Se estava falando sério, não pode deixar de demitir os apadrinhados políticos que o dirigem, como o presidente Milton Zuanazzi, que não cora ao dizer que a agência "não tem nenhuma responsabilidade" pelo caos aéreo, e a diretora Denise Abreu, que tampouco enrubesce ao falar que "a Anac não concedeu novos vôos para Congonhas". Um é ligado à ministra Dilma Rousseff, ambos gaúchos. A outra trabalhou com o antecessor dela na Casa Civil, José Dirceu. (E ambos, e mais outros dois diretores da Infraero, foram condecorados pela Aeronáutica sexta-feira!) E que dizer da Infraero, atolada em denúncias de desídia e corrupção? Aparentemente, Lula já resolveu trocar o seu presidente, brigadeiro José Carlos Pereira. E busca um substituto para o letárgico ministro da Defesa, Waldir Pires. Injetar competência e honestidade na Infraero e na Anac é indispensável, porém insuficiente.Das 720 palavras lidas por Lula diante das câmaras, apenas 10 trataram - e ainda assim genericamente - do problema que desencadeou o apagão. Ele se limitou a aludir à "intensificação das medidas de modernização do controle de tráfego aéreo". Ora, quando a mera barbeiragem de um eletricista no Cindacta-4, em Manaus, é tudo o que basta para aterrar os vôos entre o Brasil e a América do Norte, internacionalizando a crise, o uso do verbo "intensificar" é uma impropriedade: não se pode fazer com mais intensidade o que patentemente não se começou a fazer.

O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2024 | 00h00

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