Grosseria como diplomacia

Desde que chegou ao poder, em 2009, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, notabilizou-se por se indispor com governos de países amigos. A diplomacia não parece ser o forte de Bibi, que a cada dia consolida o isolamento de Israel graças a seu empenho em impor sua visão intransigente a respeito da longeva ocupação dos territórios palestinos. Aumenta, portanto, o número de países e de movimentos de opinião que divergem do governo israelense nesse aspecto, ainda mais quando se trata de reafirmar o compromisso com o direito dos palestinos à terra que hoje é colonizada por radicais que, não raro, apelam para a violência para perenizar essa situação.

O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2015 | 03h00

Decerto esse foi um dos elementos do cálculo que moveu o governo da presidente Dilma Rousseff quando decidiu esquecer em uma gaveta a indicação do embaixador escolhido por Israel para Brasília, Dani Dayan, que liderou assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada. Correr o risco de deflagrar uma crise diplomática com Israel deve ter parecido, na contabilidade do Planalto, um preço baixo a pagar pelos ganhos gerados por tal atitude na opinião pública internacional. E tudo o que Dilma neste momento almeja é ter o que oferecer em troca do apoio de movimentos de opinião, mesmo daqueles que têm na causa palestina e na hostilidade absoluta a Israel duas de suas principais bandeiras.

Nada disso, porém, deve desviar a atenção do fato de que Israel foi inaceitavelmente arrogante na sua relação com o Brasil. O Itamaraty tem toda razão ao questionar o modo como Dayan foi nomeado: Bibi anunciou seu nome antes mesmo de fazer a devida comunicação ao Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o que indica que, para o premiê israelense, a aceitação do diplomata por parte do Brasil eram favas contadas. Com isso, Bibi atropelou o protocolo, que não existe à toa, pois o mínimo que se espera da relação entre nações civilizadas é que seja respeitosa.

Ritos diplomáticos, porém, não são o forte de Israel em sua convivência com o Brasil. São inesquecíveis as palavras de um porta-voz israelense, em julho de 2014, quando chamou o Brasil de “anão diplomático” e “parceiro diplomático irrelevante”. Foi uma reação à decisão brasileira de convocar o embaixador em Tel-Aviv, Henrique Pinto, para consultas, como forma de protesto contra ataques israelenses à Faixa de Gaza, que então já haviam matado mais de 800 palestinos e alvejado até uma escola mantida pela ONU.

Israel poderia ter reagido dentro dos limites previstos pela etiqueta diplomática, manifestando-se nos mesmos termos que o Brasil, guardando silêncio – o que seria poderosa expressão de contrariedade –, ou, no tempo adequado, indicando na forma correta outro embaixador. Mas não: preferiu tornar público o incidente.

Dani Dayan foi líder de uma entidade que defende os interesses dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, além de ser morador de um deles. Formalmente, o Itamaraty não comentou o assunto, mas está claro que o currículo de Dayan foi considerado inaceitável pelo governo brasileiro.

O governo de Israel, por sua vez, reagiu de modo grosseiro. Em entrevista a uma TV local, a vice-ministra das Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, afirmou que seu país não tem intenção de mudar a nomeação e sugeriu que Dilma está interessada em tirar proveito do caso para obter ganhos políticos em meio à crise que enfrenta.

Se Hotovely fosse uma cidadã qualquer, falando em seu próprio nome, o comentário até seria válido. Mas, como diplomata – mesmo sendo tosca a ponto de declarar que o mundo tem de aceitar o “direito” de Israel de colonizar a Cisjordânia –, ela deveria saber que o Brasil pode contestar a indicação de representantes estrangeiros cujo perfil ofenda seus princípios – e o Brasil tradicionalmente se opõe à política de ocupação israelense dos territórios palestinos.

Esse lamentável episódio diz menos sobre o desespero da presidente e mais sobre a incrível inabilidade do atual governo de Israel nas suas relações internacionais.

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