Guantánamo assedia Obama

No primeiro dia do seu primeiro mandato, em 20 de janeiro de 2009, o presidente Barack Obama reiterou enfaticamente a promessa de campanha que ressoou no exterior talvez mais do que qualquer outra - a de fechar o infame campo de prisioneiros na base de Guantánamo, em Cuba. O chamado "centro de detenção", como se recorda, foi criado no governo Bush para encarcerar suspeitos de participar de atos terroristas contra os Estados Unidos, a começar de Khalid Sheikh Mohammed, o cérebro do monstruoso atentado da Al-Qaeda contra as torres gêmeas de Nova York e a sede do Pentágono, em Washington, no dia 11 de setembro de 2001.

O Estado de S.Paulo

03 Maio 2013 | 02h08

Desde a sua instalação, passaram pelas celas de Guantánamo 779 "combatentes inimigos", como os EUA os designaram para não ter de cumprir as Convenções de Genebra sobre tratamento de prisioneiros de guerra. Permanecem 166, quase todos na kafkiana situação de, ao longo desses 11 anos, jamais terem sido acusados de qualquer crime - o que simplesmente não acontecerá, ou porque as suas confissões e eventuais delações foram obtidas sob tortura, ou porque não há do que acusá-los. Cerca de 90 deles já poderiam ter sido soltos, mesmo pelos critérios draconianos da "guerra ao terror" de Bush. Apenas seis respondem a processo.

Guantánamo se tornou sinônimo das violações que se contrapõem aos valores indissociáveis do primeiro grande Estado democrático do mundo, fundado na liberdade de expressão, na igualdade de todos perante a lei e no seu direito a um julgamento justo. A promessa de fechar o presídio fazia parte do projeto de Obama de restaurar a imagem dos EUA no mundo. No entanto, confrontado com a dura oposição da maioria republicana no Congresso e achando, decerto, que melhor faria se investisse os seus recursos de poder em batalhas políticas mais cruciais para o seu governo, como a da reforma do sistema de saúde, o presidente deu o dito pelo não dito e pareceu esquecer o assunto.

Uma greve de fome iniciada em fevereiro, a que viriam a aderir entre 100 e 130 presos, em protesto contra a sua detenção indefinida e a piora das condições de encarceramento, assediou rudemente a memória do presidente americano. Perguntado sobre o caso numa entrevista de rotina na Casa Branca, na última terça-feira, só lhe restou reatar o compromisso assumido há quatro anos e quatro meses. Disse que era "insustentável" manter uma centena de pessoas numa perpétua terra de ninguém e perguntou, retoricamente: "Por que estamos fazendo isso?". A resposta, tudo indica, é que ele não fez o bastante para acabar com uma situação que, nas suas palavras, "vai piorar, vai supurar".

Tanto Obama sabe que podia ter se empenhado mais para resolvê-la que prometeu ordenar uma revisão de "tudo que se possa fazer administrativamente" para, entre outras coisas, instalar os presos mais perigosos de Guantánamo numa penitenciária de segurança "supermáxima" no Estado de Illinois, a ideia original bloqueada pelo Capitólio. Só que a transferência apenas muda de lugar o problema do que fazer com dezenas de detentos considerados temíveis demais para serem libertados - nem assim levados a julgamento. "Isso contraria o que somos e os nossos interesses", atestou Obama. "Tem de parar." Mas não disse como nem quando.

O presidente da Comissão de Serviços Armados da Câmara dos Representantes, Howard McKeon, um republicano, critica o presidente por não exercer a prerrogativa de remover as restrições do Congresso ao envio de detentos a terceiros países que aceitem recebê-los. Organizações de direitos humanos demandam ainda que a Casa Branca assuma, em vez de deixar aos duvidosos cuidados do Pentágono, o processo de fechamento de Guantánamo. Nesse meio tempo, protestos se elevaram em outra frente. A Associação Médica Americana e o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU condenaram como antiética e degradante a alimentação forçada de pelo menos 21 detentos em greve de fome. "Não quero que morram", diz Obama. Mas a isso também eles têm direito.

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