Haddad e as boas intenções

Fernando Haddad inaugura seu mandato como prefeito de São Paulo com a saudável intenção de acabar com o histórico "balcão de negócios" sobre o qual se realizam os entendimentos com os vereadores a respeito da votação de matérias de interesse do Executivo. A ideia é substituir as negociações individuais com os edis pelo atendimento "no atacado", por intermédio das lideranças de bancadas. O objetivo é acabar com o "toma lá dá cá" e impedir que a aprovação de projetos importantes para a municipalidade acabe dependendo do atendimento de pleitos de interesse pessoal de vereadores ou de grupos a eles vinculados. Louvável propósito. Resta saber até que ponto isto é exequível, dadas as condições em que o partido do prefeito, o PT, consagrou as relações do Executivo com o Legislativo a partir da posse de Lula na Presidência da República.

O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2013 | 02h05

O "toma lá dá cá" não é, claro, uma invenção do PT. É uma característica do patrimonialismo que desde sempre predominou na história da República, para não se recuar a um passado mais remoto. O PT nasceu, aliás, com o compromisso de combater esse e outros vícios e distorções dos poderes da República dominados pelas "elites". Em 1992, depois de ter passado pelo Parlamento como constituinte de 1988 e perdido sua primeira disputa presidencial para seu atual aliado Fernando Collor, Lula denunciou a existência de "300 picaretas" no Congresso Nacional. Dez anos depois, eleito presidente, deu-se conta de que a existência de tantos "picaretas" entre os representantes do povo significava, na verdade, uma bênção para o Executivo, pois é muito mais fácil e prático comprar-lhes o apoio do que lutar por reformas capazes de moralizar as práticas políticas. O mensalão e a infindável sucessão de traquinagens do gênero nos últimos 10 anos ilustram à perfeição a obra-prima construída pelo lulopetismo desde então.

Diante das excelentes intenções do novo prefeito de tornar mais republicanas - expressão que os petistas adoram, a maioria sem ter ideia do que significa - as relações com os vereadores, é o caso de perguntar: Fernando Haddad sabe o que está propondo? Tem noção do que pode significar a tentativa de ignorar a boca torta do PT, que há 10 anos é conivente com práticas que antes combatia? O "toma lá dá cá" com José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor, Paulo Maluf e outros habitantes das trevas políticas não é um indicador suficientemente claro dos caminhos que o PT escolheu para se perpetuar no poder? Ou estaria o novo prefeito paulistano fazendo apenas jogo de cena?

Como todo governante que assume o poder manifestando boas intenções, Haddad merece um crédito de confiança. Mas não se pode deixar de registrar que terá de enfrentar, desde logo, o ceticismo até mesmo dos aliados. Os vereadores, novos e reeleitos, preferem tratar do assunto com declarações óbvias e anódinas. O que não é um bom sinal. Mas há os que dizem francamente o que pensam, como Antonio Carlos Rodrigues (PR), que exerce a suplência de Marta Suplicy no Senado. Com a experiência de quem presidiu a edilidade paulistana por quatro mandatos, Rodrigues garante, num misto de realismo e cinismo: "No começo se finge que existe diretriz. Depois volta a ser tudo a mesma coisa, é jogo de cena. Quero ver quando tiver uma Igreja Universal pressionando em ano de eleição para ver se não vai ter negociação". Com aliados assim, Haddad não vai precisar de adversários.

Mas, para alentar o otimismo que o ano-novo inspira, registre-se a surpreendente confissão feita durante a solenidade de posse de Haddad pelo presidente do PT, Rui Falcão, de que seu partido andou trilhando caminhos pouco recomendáveis. Falando como se o PT que hoje preside fosse o mesmo que antes de chegar ao poder não perdoava os corruptos, Falcão admitiu alguns erros, "principalmente, por termos em alguns momentos enveredado por práticas que são correntes entre os outros partidos, mas pelas quais o PT não deveria ter enveredado". Se não for tudo jogo de cena, talvez - quem sabe? - Haddad e Falcão possam dar as mãos para moralizar a política municipal.

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