Haja charme...

O governo brasileiro inaugurou, no mês passado, uma fábrica de medicamentos para tratamento de aids em Moçambique, que desse modo se tornou o primeiro país africano a ter condições de produzir os antirretrovirais genéricos. A iniciativa faz parte do que uma reportagem do jornal The New York Times (8/8) chamou de "ofensiva charmosa" do Brasil para conquistar corações e mentes africanos. Sem o mesmo poder de fogo da China e da Índia para desbravar aquele eldorado, o Brasil parece investir no chamado soft power (poder brando), uma conjugação de esforços culturais e sociais para exercer influência na África. O caso de Moçambique, que deixará de depender de ajuda internacional para obter remédios contra a aids, é exemplo do exercício desse poder. No mesmo período em que o Brasil gastou US$ 23 milhões para erguer a fábrica de remédios, a China investiu US$ 1 bilhão num empreendimento de exploração de carvão em Moçambique, disputando diretamente com a Vale. Ocioso especular qual dos dois projetos terá maior impacto econômico para o investidor.

O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2012 | 03h08

Há, de fato, um fosso entre o discurso brasileiro de afirmação internacional e os meios disponíveis para torná-lo realidade. Desde a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o governo orgulha-se de ter ampliado a presença diplomática no exterior, com ênfase na África. De fato, o número de representações do Brasil no mundo saltou de 155 para 223, e só em países africanos o total de embaixadas cobre 37 dos 54 países do continente. O problema é que, em várias dessas missões, o pessoal para o serviço se resume apenas ao próprio embaixador. E há ainda a escolha discutível de países sem nenhum peso econômico ou político para receber uma representação diplomática brasileira de alto nível. Nem os Estados Unidos, cuja diplomacia tenta ser onipresente, gastou dinheiro para colocar algum funcionário nesses lugares.

Além disso, não há companhias aéreas brasileiras operando na África e não há filiais de bancos brasileiros por lá, dificultando bastante a aproximação, mesmo que seja apenas soft.

A diplomacia brasileira admite que não tem condições de competir de igual para igual com a voracidade do capital chinês na exploração da África, e portanto aposta numa relação mais "humana". Um dos aspectos mais importantes dessa estratégia está no fato de que as empresas brasileiras contratam funcionários africanos, enquanto as chinesas, graças ao abismo cultural, preferem importar trabalhadores de seu próprio país. A intenção é estabelecer com os africanos uma relação que não lembre os antigos tempos coloniais, em que as potências europeias apenas exploravam as riquezas locais - mais ou menos como faz a China hoje. Isso inclui promover intercâmbio entre estudantes e professores e financiar a construção de estradas, rodovias, hidrelétricas e outras benfeitorias.

Ademais, o Itamaraty contabiliza como efeito positivo da aproximação com a África o fato de ter obtido apoio daquele continente para a candidatura de José Graziano para a agência da ONU para a agricultura.

Ainda assim, quando se trata de grandes questões estratégicas, não há boa vontade cultural que prevaleça. Em 2011, por exemplo, o Brasil fracassou em sua tentativa de obter o apoio africano para um plano de reforma da ONU, em conjunto com Índia, Japão e Alemanha, que lhe poderia dar um assento permanente no Conselho de Segurança, sonho de consumo da diplomacia nacional. Os africanos foram pressionados pela China, a quem não interessa ter a companhia de outros emergentes, como Brasil e Índia, com poder de veto na ONU.

Parece claro a esta altura, portanto, que o esforço brasileiro para conquistar os africanos não terá resultados imediatos importantes, sendo muito mais uma aposta no futuro - afinal, a África tem um sexto da população do planeta e dispõe de grande potencial de crescimento econômico, do qual China e Índia estão ávidos por participar. Assim, é difícil esperar que só com boas intenções ou com afinidades históricas o Brasil seja capaz de enfrentar a concorrência asiática e consolidar-se como parceiro preferencial dos bons negócios africanos.

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