Haydn ou BlackBerry

Tocava na Sala São Paulo um virtuoso pianista húngaro. Na interpretação de sonata do compositor clássico Joseph Haydn, um cavalheiro na fileira à frente passou todo o tempo a dedilhar o BlackBerry, a consultar a internet e a receber mensagens. Além da perturbação do foco de luz, o manuseio do BlackBerry dificultava a atenção dos circunstantes, ao trazer ao templo da música o mundo exterior, um invasor sorrateiro, indicativo de ser sempre mais importante o lugar onde não se está. Viam-se pelo salão outros focos de luz. No intervalo, a direção teve de pedir para não serem acionados aparelhos celulares, mesmo no modo silencioso.

Miguel Reale Júnior, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2010 | 00h00

Esse singelo fato revela a dificuldade de as pessoas viverem a solidão, o recolhimento que exige a audição de sonata de Haydn, mesmo em ambiente das dimensões da Sala São Paulo, quando a música leva ao ensimesmamento, ao desligamento momentâneo do universo. Essa impossibilidade de se isolar veio de alguém disposto a ouvir Haydn, culturalmente interessado por música erudita a elevado preço, tanto que foi ao espetáculo. Malgrado isso, sucumbiu à força da tentação de manter contato imediato e ininterrupto com a vida lá fora, para saber notícias de todos os cantos. Se assim se deu com pessoas de nível intelectual no mínimo médio, que dizer daqueles cujas únicas fontes de informação são a televisão e o rádio, ou seja, a grande maioria do povo brasileiro?

Os meios de comunicação estão a penetrar cada instante da vida, passando a ser difícil se manter alheio ao que sucede naquele instante nos recantos da Terra ou no círculo de amigos. A comunicação contínua transforma cada qual em consumidor viciado de informações, passivamente dominado pela necessidade premente de receber e enviar mensagens, de falar ao celular, de visualizar enquanto almoça ou janta o écran da televisão, de ouvir a todo momento o noticiário pelo rádio. Brota a sofreguidão pelo recém ocorrido, de que se é inteirado de imediato, sem espaço para a reflexão ou a dúvida.

A consequência está na perda da individualidade diante do predomínio do coletivo graças à massificação da informação contínua, que formata sem juízos críticos uma mentalidade única, com distinções apenas tênues. A avassaladora prevalência do coletivo, no entanto, não proporciona o espírito comunitário, a solidariedade entre os homens, cada vez mais exclusivistas. Curiosamente, surge um individualismo sem individualidade: as pessoas restam sem identidade.

Neste mundo da comunicação online, esgarça-se a noção de passado, de continuidade histórica, restando incompreensível aceitar sermos o produto do que fomos e fizemos, para instaurar-se o império do instante, sem perspectiva ou interesse pelo futuro, a se configurar o cenário descrito por Albert Camus, o do homem absurdo para o qual só há presente, uma sucessão de presentes.

A existência transcorre sem se formularem juízos de valor, sem imaginação, pois predominam o que se vê e os juízos de fato, por se afastar a construção de hipóteses. Nessa submersão no maremagnum dos acontecimentos, substitui-se a qualidade das experiências pela quantidade das experiências, na expressão de Camus.

Passa-se, então, a fazer parte da "opinião pública", que não consiste na opinião de todos nem da maioria, mas a opinião construída pela mídia, especialmente rádio e televisão, que seleciona as matérias a serem veiculadas e, o mais importante, escolhe a forma como elas serão veiculadas. Decidem os editores a tonalidade e os acentos a serem dados à notícia, sempre em busca do que efetivamente conta: o aumento da audiência.

O rádio e a televisão são meios de informação unilateral. A comunicação de massa é um monólogo, ou, como diz Manuel Castells, tem mão única ao impor um modo de ver fatos e ao gerar uma escala de valores e modismos efêmeros. Formata-se, dessa maneira, um consenso artificial, uma opinião coletiva recepcionada sem questionamentos e sem avaliações. Imperceptivelmente, as pessoas são cada vez mais escravas dos meios de comunicação, ainda por cima com a internet, pois precisam deles, se alimentam deles, sentem-se órfãs ao estarem desconectadas. Vive-se com a mídia e pela mídia. Viver é estar plugado.

De acordo com Castells, a nova cultura é a cultura da virtualidade real, em que predomina a televisão, esse meio frio de comunicação que se dirige a uma audiência preguiçosa, a um telespectador presidido pela lei do mínimo esforço, sem resistências em face do que lhe é transmitido. A televisão, devendo alcançar e satisfazer o maior número de pessoas, faz na programação um corte por baixo e define um raso denominador comum. Dessa maneira, ao buscar entreter, vale criar alarma, emocionar, estimular os aspectos sensoriais, facilmente apreensíveis, e apenas com raras exceções valorizar o senso crítico, a imaginação e a reflexão.

Dá-se a mundialização dos costumes ao se uniformizarem comportamentos difundidos pelos meios de comunicação, do rádio à internet, em vista do que se enfraquecem a influência e a importância dos emissores seculares de valores e de ideais como a religião e as ideologias políticas.

E agora, como preservar a identidade do homem nesta nova coletivização dos espíritos? Sem jogar o BlackBerry pela janela, cumpre aprender com disciplina e resistência que o uso das ferramentas tecnológicas deve conviver com o silêncio, ao ouvir Haydn ou ao estar só, consigo mesmo. Cabe uma revolta do homem contra os dominadores insidiosos, para impedir a invasão constante de nossos domínios de exclusividade.

Defensores da imaginação silenciosa, uni-vos.

ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA

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