Helio Jaguaribe, aos 90

Helio Jaguaribe completa 90 anos neste mês. Integra uma admirável geração que começou a produzir na década de 1950 com base no que escrevera a anterior, para explicar o Brasil, de distintas perspectivas (por exemplo, as de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr.). A partir desse patamar de conhecimento procurou, à sua maneira, as chaves para o entendimento do Brasil, da sua formação e do seu destino político, econômico e cultural. Dessa geração, que inclui Celso Furtado, Roberto Campos, Raymundo Faoro, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Helio é um dos grandes expoentes.

Celso Lafer *,

21 Abril 2013 | 02h07

Essa geração exerceu, no espaço da palavra e da ação, a função do intelectual público e, nesse âmbito, Helio é representativo de um paradigma de excelência. Empenhou-se, tendo em vista a relação entre intelectuais e política no mundo contemporâneo, tanto em propor rumos quanto em elaborar conhecimentos aptos a converter os rumos propostos em políticas públicas.

"Compreender o nosso tempo na perspectiva do Brasil" e "compreender o Brasil na perspectiva do nosso tempo" foi o lema que Helio formulou em 1953 para a revista Cadernos do Nosso Tempo, que fundou e dirigiu. Esse lema, na dialética de sua complementaridade, caracteriza as linhas da trajetória do seu pensamento e da sua ação. Num fecundo diálogo entre o nacional e o universal explora e clarifica o porquê e o como promover e incrementar a racionalidade pública para ampliar democraticamente, com liberdade e igualdade, o poder de controle da sociedade brasileira sobre o seu destino. Daí, no correr das décadas, não só as suas intervenções, as instituições que criou (como o Iseb), a sua participação na vida pública e os seus incontáveis estudos relacionados com o desenvolvimento brasileiro.

O impacto de Helio na opinião pública como expositor, analista da conjuntura, articulista tem muito que ver com o vigor e o entusiasmo da sua orteguiana razão vital, com a fulgurante inteligência do seu poder de síntese e a originalidade contagiante de suas formulações. Em poucas palavras, com o seu estilo que, como todo estilo, é a expressão de uma visão de mundo. Observa Helio que, "as ideias de um autor sobre o mundo coincidem com o mundo das ideias desse autor".

Helio, no mundo das ideias, é um pensador que, por aproximações sucessivas, com empenho de scholar, sistematizou e desenvolveu suas inquietações e percepções numa densa obra. Esta, a de maior escopo de sua geração, abrange, num arco de coerência, muitos campos do conhecimento. Por questão de espaço vou circunscrever minhas observações à ciência política e às relações internacionais.

Helio ampliou os horizontes e elevou o patamar da ciência política com Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento Político (1962), cujas ideias muito ampliadas foram elaboradas em Political Development (1973) e em Introdução ao Desenvolvimento Social (1978). Neles estão presentes a vivência da História brasileira, a política comparada e o uso sincrônico e diacrônico da experiência de outros países na análise das perspectivas brasileiras, as contribuições da ciência política norte-americana e o diálogo com os pensadores "clássicos" e "modernos". Disso resulta, no trato da dinâmica das mudanças, uma concepção funcional-dialética das sociedades, das variáveis da participação e de institucionalização dos seus sistemas políticos, do papel das lideranças e das congruências e incongruências dos fluxos entre o social, o econômico, o cultural e o político. Desse modo Helio alargou o universo do saber da ciência política, dando a base de sustentação teórica das prescrições do seu "nacionalismo de fins", comprometido em assegurar as condições de viabilidade de um caminho próprio para o Brasil no mundo, numa visão humanista destituída de zelotismos fundamentalistas.

A presença brasileira no mundo tem como suporte uma escala continental conjugada com o potencial da sua economia e de seus recursos humanos e materiais. Assim, Helio, levando em conta a aptidão interna para o desenvolvimento e partindo da ciência política, ao tratar das perspectivas da nossa diplomacia se tornou o patrono inaugural do pensamento brasileiro sobre relações internacionais. Um marco é a sua discussão da política externa brasileira em O Nacionalismo na Atualidade Brasileira (1958), no qual, por meio de um confronto analítico de posturas no período da guerra fria, pioneiramente argumenta os méritos de um não alinhamento automático com os EUA.

Dessa tomada de posição deflui a elaboração de um tema básico de Helio, que subsequentemente permeia o conjunto de estudos do livro Novo Cenário Internacional (1986) e trabalhos posteriores. Esse tema é, em síntese, o da arquitetura das condições de acesso do Brasil à autonomia, como tal entendido o de tornar viável, em distintos momentos e conjunturas, uma margem significativa de autodeterminação na condução dos assuntos internos, conjugada com uma apreciável capacidade de atuação internacional independente. Um dos seus conceitos-chave é o da dinâmica das condições de permissibilidade vigentes num sistema internacional estratificado em que prevalecem hegemonias. Daí os inúmeros estudos de Helio sobre o sistema internacional e suas transformações, do escopo de atuação dos EUA durante e após a guerra fria, da relevância da integração latino-americana e de uma aliança estratégica com a Argentina e do significado da capacitação científico-tecnológica.

Concluo realçando, com afetuosa admiração, a postura cidadã de Helio, caracterizada pela vontade e pela inteligência aplicadas ao bem da res publica. Essa postura confere a marca da grandeza a uma obra e uma vida voltadas, numa larga visada que transita pela sociologia histórica e pela antropologia filosófica, para a incessante procura, sem interesses subalternos e personalismos, dos meios de bem servir ao Brasil e à sua sociedade.

* Celso Lafer é professor emérito do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências.

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