Heliópolis, bairro educador

Ultimamente as favelas, por causa, principalmente, das tragédias ocorridas no Rio de Janeiro, têm sido objeto constante de notícias não só da mídia escrita como do rádio e da televisão. Na maioria das vezes, as notícias são tristes, relatando incêndios, desabamentos, crimes, quase sempre causando graves danos e até mortes. Raramente as favelas aparecem ligadas a atividades empolgantes, como quando as redes de TV mostraram a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, constituída de jovens moradores da favela, que vão participar, em três cidades alemãs, de um festival internacional.

Maria Ruth A. De Sampaio, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2010 | 00h00

A Favela de Heliópolis, desde seu início, diferenciou-se das demais favelas paulistanas, e é hoje a maior de São Paulo, com cerca de 120 mil habitantes. Começou em 1971-72, com o desadensamento de favelas na Vila Prudente pela então Secretaria do Bem-Estar Social, transferindo cerca de 80 moradores para terreno de propriedade do Iapas, com 1 milhão de m2, localizado na Estrada das Lágrimas. Aos poucos, o provisório foi-se tornando definitivo e em dez anos a área já abrigava 10 mil moradores, ocasião em que a Prefeitura decidiu intervir, por intermédio da Emurb, que acabou comprando a gleba do Iapas para implantar um projeto habitacional, garantindo a permanência dos ocupantes. A ideia inicial de cercar a área e tentar congelá-la para que novos moradores não fossem atraídos para lá, ao mesmo tempo que iam sendo construídos novas moradias e equipamentos sociais, não teve sucesso. Toda família tinha um parente que chegava do Nordeste, no terreno da casa sempre cabia um novo "puxadinho", e a favela ia crescendo e se adensando. O mercado imobiliário foi ficando bastante aquecido, incentivando a verticalização.

Logo nos primeiros anos, alguns moradores desse núcleo começaram a se preocupar com uma melhor educação para as crianças. Passaram, então, a convencer os demais habitantes de que a educação seria a bandeira pela qual lutariam, mesmo sabendo que essa tarefa não seria fácil, mas abriria para a comunidade um melhor caminho do que as drogas, que já disputavam espaços na gleba.

Essa ambição, com o tempo, tornou-se a meta dominante, ao lado da regularização da ocupação, da posse das moradias e de novos programas habitacionais. Além dos equipamentos sociais construídos pelos poderes públicos, há um centro denominado Os Parceiros da Criança, que foi durante alguns anos amparado pela General Motors e hoje conta com o auxílio da Prefeitura, destinado a ocupar as crianças, em horários em que não estejam na escola, com aulas de música, arte, reforço escolar, afastando-as da rua. Cleide Alves, que chegou a Heliópolis com os primeiros moradores, aos 7 anos, esteve por longo tempo à frente desse centro, dirigindo-o, sendo hoje presidente da Unas, associação que reúne diversos núcleos e associações de moradores da gleba. O discurso de Cleide, continuando a meta traçada por seus antecessores, como João Miranda, prioriza a educação, a cidadania, a moradia digna com legalização e a completa urbanização da gleba, para igualá-la a outros tantos bairros da metrópole.

Muitas pessoas foram decisivas na construção dessa trajetória e na tomada de decisões para que essa ambição se realizasse, mas o grande incentivador, que impulsionou a prioridade pela educação, mostrando a importância do conhecimento, foi o professor Braz Rodrigues Nogueira, diretor da Escola Municipal Campos Salles, situada na vizinhança da gleba, que acompanha passo a passo a realização dessa meta.

Num esforço conjunto, conseguiram que uma série de equipamentos fossem instalados nestes últimos tempos, fortalecendo e contribuindo para a concretização de fazer de Heliópolis um bairro educador. A Biblioteca Comunitária Unas/Heliópolis, por exemplo, constitui para os moradores um ponto de leitura e espaço de descobertas, com cerca de 7 mil volumes, sendo responsável pela melhora do desempenho escolar dos estudantes e tendo recebido este ano, no Masp, um prêmio de empreendedorismo social, agente de transformações. O Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis é outro equipamento que contribui para reforçar a intenção de tornar Heliópolis um bairro educador, contando com uma escola técnica profissionalizante que atende 820 alunos em cinco cursos diferentes, além de um centro cultural com cinema, teatro de arena, espaços para exposição e salas multiuso. Está em construção outro equipamento, a Torre do Saber, com seis andares, destinado a abrigar a biblioteca comunitária e os variados cursos não formais, de meio período, destinados aos adolescentes, como inclusão digital, cidadania, robótica, hip-hop, além de práticas esportivas como handebol, futsal e basquete.

Uma ativa estação de rádio oferece cursos, entre outros, de radioamador e de repórter, e entre suas atividades organiza visitas, como a efetuada à Universidade de São Paulo, para que os jovens conhecessem o mais completo polo educativo, ao qual até agora, infelizmente, eles tiveram pouco acesso. A favela conta também com uma Orquestra Sinfônica Juvenil, composta de 80 jovens e dirigida pelo maestro Silvio Baccarelli, que em breve iniciará uma turnê pela Europa, realizando concertos em três cidades alemãs, participando do Festival Beethoven. A meta está sendo cumprida.

No próximo dia 13 de junho, às 10 horas, será realizada em Heliópolis, como em todos os últimos anos, a Caminhada da Paz, percorrendo as ruas do bairro e tendo por objetivo principal, numa ação eminentemente educadora, criar a cultura da paz, da amizade, do entendimento e do auxílio mútuo, eliminando a violência, num sentido mais amplo, em todas as suas manifestações, contra a criança, contra a mulher, contra o morar mal, contra a fome e a pobreza.

SOCIÓLOGA, É PROFESSORA TITULAR DA FAU-USP

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