Hoje, parece coisa pouca

Desde que se convenceu de que paira acima do bem e do mal e por isso tudo pode, Luiz Inácio Lula da Silva impôs o vale-tudo como "desregra" única para o PT fazer política. No afã de prestar bons serviços ao chefão, frequentemente a companheirada acaba exagerando e atraindo a incômoda atenção da polícia. Nesses casos, o Lula presidente optou sempre por olhar para o outro lado, passar carinhosamente a mão na cabeça dos suspeitos ou simplesmente fazer blague. Foi assim que inventou a expressão "um bando de aloprados", para explicar, sobranceiro, a desastrada tentativa de uma quadrilha de petistas que tentou, na campanha eleitoral de 2006, comprar um dossiê falso que pretendia ligar o ex-ministro da Saúde José Serra, então candidato tucano ao governo do Estado de São Paulo, ao "escândalo dos sanguessugas", que estourara poucos meses antes, envolvendo parlamentares num esquema de desvio de dinheiro público destinado à compra de ambulâncias.

O Estado de S.Paulo

24 Junho 2012 | 03h09

Na madrugada de 15 de setembro de 2006, a Polícia Federal (PF) prendeu num hotel próximo ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, dois filiados do PT que tinham em seu poder cerca de R$ 1,7 milhão com o qual pretendiam comprar o tal dossiê, que lhes fora oferecido pelos donos da empresa Planam, Darci e Luiz Antonio Vedoin, pai e filho, apontados como responsáveis pelo superfaturamento das ambulâncias do caso dos sanguessugas. Os dois petistas eram Valdebran Silva, ex-tesoureiro do PT em Mato Grosso, e Gedimar Passos, que trabalhava no comitê da campanha da reeleição de Lula. Ambos admitiram que o dinheiro se destinava à compra do falso dossiê contra Serra.

As investigações feitas pela PF acabaram envolvendo no caso dirigentes do PT, como o então presidente nacional Ricardo Berzoini, e duas pessoas muito próximas a Lula: Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro do presidente e também membro de seu comitê de reeleição, apontado como mentor da operação, e Freud Godoy, assessor especial de Lula, indicado por Gedimar Passos como a pessoa que o teria contratado para negociar a compra do dossiê.

Imagens gravadas pelo esquema de segurança do hotel mostravam que Hamilton Lacerda, membro do comitê de campanha de Aloizio Mercadante - o adversário petista de Serra na disputa pelo governo paulista -, ali chegara portando duas malas que continham o dinheiro destinado à transação, entregue a Gedimar.

Menos de dois meses depois da prisão de Valdebran e Gedimar, todos os envolvidos estavam afastados de seus cargos e classificados pelo presidente Lula como "aloprados".

Demorou mais, como de hábito, mas quase seis anos depois, na semana passada, a denúncia contra nove dos indiciados foi preliminarmente aceita pelo juiz Paulo Cézar Alves Sodré, da 7.ª Vara Criminal de Mato Grosso, que fixou prazo de 10 dias para a apresentação das alegações da defesa, com base nas quais decidirá se abre processo criminal. A denúncia, assinada por três procuradores de Justiça, afirma: "O exame dos depoimentos dos envolvidos no episódio e demais provas evidenciam que os denunciados se associaram de forma estável e permanente e elaboraram uma série de atos preparatórios para a compra do dossiê, os quais configuram crimes. Isso permitiria a membros do Partido dos Trabalhadores a exploração político-eleitoral do dossiê nas eleições de 2006, o qual, supostamente, exporia o envolvimento de políticos do PSDB no esquema das ambulâncias".

Se a denúncia for acatada, seis dos denunciados, entre eles Valdebran, Gedimar, o churrasqueiro Lorenzetti e Hamilton, assessor de Mercadante, responderão por crimes de formação de quadrilha, contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Os outros denunciados responderão por atribuição de falsa identidade para realização de operação de câmbio.

Em comparação com o processo do mensalão, cujo julgamento finalmente a Nação se prepara para acompanhar, esse lamentável episódio empalidece, parece coisa pouca. É o que basta para dar a medida do mar de lama em que hoje, como nunca antes, a política brasileira se atola.

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