Honduras sob pressão

A recusa do governo de facto de Honduras de aceitar a proposta do mediador costa-riquenho Oscar Arias para pôr fim à crise provocada pelo golpe de Estado de 28 de junho, que depôs e desterrou o presidente Manuel Zelaya, cria uma situação ominosa para o pequeno país centro-americano e ameaça a estabilidade de uma região marcada por um prolongado histórico de violência política. O presidente Arias entrou no circuito a pedido dos Estados Unidos, depois que a OEA condenou por unanimidade o ato de força e, em seguida a um ultimato para o restabelecimento do governo Zelaya em 72 horas, aprovou a suspensão de Honduras da entidade.Talvez porque previsse que o novo regime em Tegucigalpa chefiado por Roberto Micheletti fincaria pé no veto taxativo ao seu regresso, talvez porque, instigado por seu patrono Hugo Chávez, não tivesse intenção de cumprir os termos do plano Arias, o fato é que Zelaya não objetou a nenhum dos seus sete pontos. O pacote configurava, nas circunstâncias, o arranjo decerto mais razoável para devolver a Honduras um semblante de normalidade institucional e resgatar o país do isolamento a que foi submetido por exumar uma prática que infelicitou secularmente o Hemisfério - e contra a qual a OEA aprovou em 2001 a Carta Democrática em que se baseariam as decisões do organismo no caso. Os seus aspectos cruciais seriam a formação de um governo de "reconciliação nacional" que ele encabeçaria, com representantes dos principais partidos, e o abandono da ideia chavista - que levou à destituição de Zelaya - de promover uma consulta popular que abriria caminho a uma reforma constitucional que, por sua vez, lhe permitiria disputar um segundo mandato. (A não-reeleição, a qualquer tempo, é cláusula pétrea da Constituição hondurenha.) Zelaya permaneceria no poder até o fim do mandato, em 27 de janeiro de 2010, mas as eleições para a sua sucessão seriam antecipadas de novembro para outubro próximo. Todo o processo seria monitorado por uma comissão de notáveis, entre hondurenhos e membros de entidades internacionais.Se a intransigência do governo Micheletti embutia a expectativa de que os EUA se resignariam ao estado de coisas em Honduras que o presidente Barack Obama qualificara como "terrível precedente", os dias seguintes à recusa da oferta de Arias devem ter trazido desapontamento e inquietação para os dirigentes de Tegucigalpa. A secretária de Estado Hillary Clinton, que até então mantinha uma atitude próxima da neutralidade em relação ao conflito no país, em contraste com as posições pró-Zelaya da Casa Branca, pela primeira vez confrontou pessoalmente a crise. Em um telefonema a Micheletti, ela o instou a reconsiderar o plano Arias, advertindo-o para "as potenciais consequências de deixar de se beneficiar dessa mediação", no relato do porta-voz do Departamento de Estado.Ao mesmo tempo, divulgou-se que empresários hondurenhos foram procurados pelo embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, que chamou a sua atenção para o impacto das sanções econômicas que os Estados Unidos poderiam adotar, não apenas suspendendo por inteiro a ajuda ao país, como ainda bloqueando contas de Honduras em bancos americanos - por sinal, uma insistente demanda de Zelaya. As pressões de Washington se somaram à decisão da União Europeia de congelar o equivalente a US$ 92 milhões em ajuda a Honduras. Se o endurecimento americano passar das palavras aos atos, não se imagina como os autores do golpe conseguirão fazer a travessia até as próximas eleições - o que parece ser o seu intento, numa política de fatos consumados. A dependência hondurenha dos Estados Unidos é simplesmente imensa.E há o extremismo cada vez mais acentuado de Zelaya. Com o fracasso das negociações na Costa Rica, ele passou a pregar a "insurreição" contra os seus inimigos, além de anunciar sua segunda tentativa de voltar ao país, no próximo fim de semana, na sequência da greve geral que os seus partidários pretendem desencadear. O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, não exagera ao dizer que a teimosia do regime de Micheletti é "uma loucura que pode custar caro". Para todos, menos para o caudilho venezuelano Hugo Chávez - dizemos nós.

, O Estadao de S.Paulo

22 de julho de 2009 | 00h00

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