Hora de reciclar a economia

É hora de reciclagem para o Brasil e a América Latina. A região enfrentou bem a crise internacional nos últimos anos, mas é hoje menos pujante, mais vulnerável a problemas externos e menos preparada para crescer de forma sustentada. O diagnóstico é do FMI. Sem censuras e sem alarmismo, alguns sintomas preocupantes são apontados no Panorama Econômico Mundial, divulgado na segunda-feira. O superaquecimento apontado em relatórios anteriores desapareceu. Como resultado, a inflação cedeu, mas, ainda assim, continua acima do centro da meta em vários países. O espaço para estímulo fiscal contra a crise reduziu-se e é preciso restabelecê-lo. As contas externas são menos folgadas do que já foram e o crescimento da atividade está no limite, ou muito perto. Feito o diagnóstico, a receita é simples: é hora de uma nova rodada de reformas estruturais. No caso do Brasil, isso inclui a eliminação de gargalos da infraestrutura.

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2012 | 03h15

O relatório menciona como dado positivo a recente política de concessões ao setor privado de rodovias e ferrovias, mas com um adendo relevante: é também necessário aumentar o investimento público. Nenhum detalhe é acrescentado, mas para o público brasileiro a referência implícita está bem clara. O governo federal tem investido muito menos do que deveria e poderia. A administração federal tem sido simplesmente incapaz de usar os recursos disponíveis para realizar os investimentos previstos.

Fatores importantes limitam o potencial de crescimento do Brasil e de outros países da região. O relatório destaca os gargalos da infraestrutura, mas, no caso brasileiro, há várias outras restrições bem conhecidas e já apontadas pelo próprio Fundo em outros documentos, como a rigidez das finanças públicas. Incapaz de controlar a expansão do próprio custeio e de manejar seus recursos com maior flexibilidade, o governo tem dificuldade para reduzir e racionalizar a tributação. Isso explica a preferência pela desoneração seletiva, quase sempre compensada por aumento da carga de outros setores. Mas o relatório, embora aponte questões cruciais e apresente um receituário bem fundamentado, passa longe de detalhes como esses, mais delicados do ponto de vista político.

O FMI reduziu para 3,2%, em 2012, e 3,9%, em 2013, o crescimento econômico estimado para a América Latina e o Caribe. Houve corte de 0,2 ponto porcentual na previsão para este ano e de 0,3 na projeção para o próximo - uma desaceleração moderada, segundo os autores do trabalho. As revisões, no caso do Brasil, foram mais acentuadas: de 2,5% para 1,5% e de 4,7% para 4% nos dois anos. O número calculado para 2012 é mais baixo que o adotado pelo Ministério do Planejamento (2%) e quase igual ao da nova estimativa do Banco Central (1,6%). O desempenho brasileiro, de toda forma, é bem inferior ao de boa parte das economias da região. Para vários desses países o quadro é de expansão econômica maior e inflação menor que no Brasil.

Esses contrastes aparecem numa das tabelas do relatório, mas não há comentários específicos sobre eles. O FMI, no entanto, aplaudiu a redução de juros iniciada pelo Banco Central em agosto de 2011, embora os efeitos dessa política para a reativação da economia brasileira, como é indicado no documento, tenham sido até agora muito limitados. A inflação, no entanto, permanece acima do ponto central da meta. Isso também ocorre em outros países latino-americanos, como Chile, Colômbia e Peru, mas neles, de modo geral, a evolução dos preços é mais favorável do que no Brasil.

De acordo com o documento, convém usar a política monetária como primeira linha de defesa contra novos impactos externos. Parece a escolha mais razoável, por causa da redução da margem para novos estímulos fiscais. A restrição fiscal vale certamente para o Brasil. Mas pode-se discutir se o espaço para uma política monetária mais frouxa é tão amplo no Brasil quanto em outros países onde a alta de preços tem sido bem menos acentuada. Diante de novas dificuldades, as políticas compensatórias seriam bem menos custosas, se as autoridades tivessem sido menos tolerantes à inflação nos últimos anos.

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