Horizonte sombrio nas negociações sobre mudanças climáticas

O mundo não vai acabar em 2012, como acreditam alguns. Isolada essa corrente do pessimismo, todas as outras devem ser levadas em conta. O horizonte é dos mais sombrios para a Conferência Rio+20. Duas grandes nuvens escurecem o panorama do encontro no Rio de Janeiro: o relativo fracasso das negociações em Durban (COP-17) e a crise econômica na Europa.

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2011 | 03h05

Embora as emissões de CO2 tenham aumentado nos últimos anos, a Conferência de Durban reuniu apenas 10% dos 120 chefes de Estado que estiveram em Copenhague em 2010. As esperanças foram reduzidas a uma continuação do frágil Protocolo de Kyoto. Ainda assim, Rússia, Japão e Austrália ameaçam saltar do barco. O drama central está na própria vanguarda do esforço de redução das emissões de carbono: a Europa em crise. Responsável por 15% das emissões globais, a Europa - por meio de alguns países, como Inglaterra e Alemanha - moveu-se para reorientar a produção rumo à economia de baixo carbono.

O Protocolo de Kyoto libera países emergentes de reduções de emissões obrigatórias. E os europeus afirmam, com razão, que alguns países, como China e Índia, cresceram muito e deveriam estabelecer suas metas obrigatórias. No encontro realizado em Pequim, o grupo de emergentes Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) não chegou a um acordo para responder à demanda europeia. Brasil e África do Sul concordam com ela. A Índia apareceu com uma posição diferente, bem mais radical no ceticismo quanto ao aquecimento. E a China se manteve um pouco distante, o que é compreensível.

Desde a década de 1970 a China tem os EUA como a grande referência no diálogo internacional. Juntos, EUA e China produzem 40% das emissões planetárias. Dificilmente a China avançará se os americanos não o fizerem. E os americanos não podem ser avaliados pelo discurso de Barack Obama, como não o foram pelo de Bill Clinton. A decisão sobre o caminho do país sempre esteve no Congresso.

E por que ser apenas moderadamente pessimista em relação à Rio+20? Ela trata de temas mais diretamente ligados ao cotidiano das pessoas: economia verde, erradicação da miséria. A experiência diplomática mais complexa que nos pode inspirar agora talvez seja a da aproximação China-EUA, no relato de um dos atores, Henry Kissinger.

Os chineses, com sua longa História, tinham uma percepção generosa de tempo. Mao Tsé-tung dizia que não seria um grande problema se as negociações fracassassem, pois haveria novas tentativas. Mas com mudanças climáticas não nos podemos guiar apenas pela sabedoria milenar chinesa. Há limites propostos pela ciência. Se forem transpostos, podem tornar inviável a própria continuidade humana.

Ainda dentro da experiência diplomática sino-americana, deve-se levar em conta a habilidade de deixar grandes impasses momentaneamente de lado para avançar um pouco. Um debate planetário sobre a abertura de empregos pela economia verde não é bom só para quem precisa de renda. Na prática, é uma contribuição aqui, na planície, enquanto não se fecha um acordo nas alturas.

O Brasil tem exemplos a mostrar, como o da reciclagem de latas de alumínio, em que alcançamos o melhor índice mundial: 98%. E tem muito a aprender, também, com o avanço da produção de energia solar, em todas as suas formas, até nas baterias que se levam em mochilas. Na erradicação da miséria, que é a proposta central do governo, será inevitável incluir um debate sobre a produção de alimentos. São 80 milhões de bocas novas para alimentar por ano no mundo. Basta olhar as revoltas populares que, associadas à luta pela democracia, derrubaram e vão derrubar governos. O peso do aumento do preço dos alimentos foi significativo. Como encontrar os caminhos da sustentabilidade humana aqui e agora, mesmo que nos aproximemos da placa "proibido ultrapassar" que a ciência sugere: mais 2 graus centígrados, 450 ppms?

Conferência internacionais com temas tão abrangentes não são fáceis, muito menos para o país anfitrião. Observadores brasileiros em Pequim notaram o empenho dos sul-africanos, entre os emergentes, para que Durban saísse com algo positivo. Ninguém quer hospedar um fracasso coletivo. No caso brasileiro, as chances são maiores porque a Rio+20 tem uma agenda que coincide com o tema principal do governo. O País não só é um dos maiores produtores de alimentos do planeta, como ocupa o cargo de direção da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), com José Graziano. Terá de usar todos os seus recursos para que a Rio+20 seja uma reparação do anticlímax de 2011. Avançando em alguns temas, é sempre mais fácil retornar ao grande impasse, com chance de superá-lo.

Quem pensava que as mudanças climáticas seriam equacionadas a partir de uma contradição Norte-Sul ficará confuso ante as alianças ocasionais que se formam. Mao dava segurança aos interlocutores afirmando que a busca do acordo seria permanente, à prova de fracassos. Estamos diante de problemas que não dependem de impasses momentâneos e modas passageiras. Mas a natureza do problema desafia a visão maoista de que a contradição é o motor de todas as coisas. Neste caso de ameaça planetária, a cooperação é o dínamo do processo.

O Brasil teve um papel em Durban e terá outro na Rio+20. A síntese dos dois grandes temas, mudanças climáticas e erradicação da miséria, pode definir objetivos permanentes, uma base mínima de unidade nacional, atravessando governos e facções políticas. Para quem teve a oportunidade de ver a Rio-92,um ciclo histórico vai se fechar em 2012. Naquela época, os temas eram mudanças climáticas, florestas tropicais, destruição da camada de ozônio. E os africanos conseguiram impressionar, levantando o problema da desertificação.

Não sei o que nos espera na Rio+40 ou mesmo na Rio+60. Com todas as suas contradições, é importante que a cidade seja associada a essa tentativa planetária, para o que der e vier.

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