Horror na Coreia do Norte

Não é possível ficar indiferente às monstruosas violações de direitos humanos na Coreia do Norte reveladas recentemente por um grupo de investigadores. Poucas vezes ficou tão claro o caráter criminoso do regime norte-coreano, o mais fechado do mundo. Diante disso, a comunidade pode optar por reagir energicamente, denunciando a delinquência dos líderes daquele país, ou pode, em nome do pragmatismo diplomático, silenciar ante o sofrimento de milhões de seres humanos.

O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2014 | 03h24

A investigação sobre a situação da Coreia do Norte foi realizada por uma comissão independente com mandato conferido pelo Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Durante quase um ano, os integrantes do grupo entrevistaram cerca de 80 refugiados norte-coreanos, entre outras testemunhas. Os investigadores não puderam entrar em território norte-coreano para obter mais informações porque a Coreia do Norte rejeitou categoricamente a instalação da comissão e negou-se a fornecer dados para o inquérito.

O material obtido com base nos testemunhos, descrito em mais de 400 páginas, é, no entanto, suficientemente forte para concluir que há graves indícios de crimes contra a humanidade na Coreia do Norte. Os investigadores recomendam a abertura de processo contra o ditador Kim Jong-un no Tribunal Penal Internacional.

Não é novidade que há sistemática violação de direitos humanos na Coreia do Norte. São conhecidos os campos de trabalhos forçados, a prisão de dissidentes e a ausência total de liberdade. Mas é a primeira vez que essa violência é descrita de maneira tão abrangente, expondo abertamente a natureza totalitária do regime norte-coreano.

Além da doutrinação ideológica que começa desde a infância, o relatório aponta o controle total da vida social dos norte-coreanos, inclusive em atividades cotidianas. O cristianismo é visto como uma das principais ameaças a esse Estado total, porque questiona o culto à personalidade de Kim e oferece a seus fiéis uma forma de organização política e social potencialmente autônoma. Cristãos flagrados em culto são severamente punidos.

A investigação indica ainda que o princípio da igualdade, que está na essência da ideologia comunista, é uma farsa na Coreia do Norte. A discriminação é profunda no país, e os que estão na base da pirâmide social - isto é, praticamente todos os habitantes - não podem escolher onde vão morar, que profissão exercerão, com quem poderão se casar e mesmo a quantidade de comida que terão à mesa. Como nenhum serviço público é gratuito, a maioria da população vive à mercê de favores dos poucos privilegiados que estão no topo da escala social, gerando corrupção brutal.

Em relação à fome que de tempos em tempos atinge a Coreia do Norte, a investigação indica que a questão é muito mais grave do que a escassez eventual de alimentos. "O Estado usa a comida como uma forma de controle sobre a população. Prioriza aqueles que, para as autoridades, são essenciais na manutenção do regime, em detrimento daqueles considerados descartáveis", diz o relatório. Segundo os investigadores, o governo norte-coreano impede a distribuição de comida mesmo em tempos de fome profunda. Nos campos de prisioneiros, as autoridades matam dissidentes de inanição.

O Estado empenha-se em criar um clima de terror, e a impunidade campeia. Pessoas supostamente envolvidas em "crimes políticos", e mesmo cidadãos de outros países, como Coreia do Sul e Japão, desaparecem sem deixar vestígios.

"O fato de que a República Democrática da Coreia, como Estado-membro da ONU, cometeu crimes que chocam a consciência da humanidade levanta questões sobre a inadequação da reação da comunidade internacional", diz o relatório. No que depender da China, porém, nada vai mudar. Únicos aliados do regime norte-coreano, e detentores de poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, os chineses consideram que a investigação faz "críticas infundadas" e condenou a "politização dos direitos humanos".

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