Hu aqui e Lula lá, na China

Depois de dez anos no poder, o presidente da China, Hu Jintao, está de saída. Por aqui, Lula ficou num período que coincidiu com os primeiros oito desses dez. Não sei se já o fez, mas Lula deveria agradecer a Hu pela grande ajuda que recebeu dele, do Partido Comunista (PC) chinês e da China, quando governou. Sob Lula, e como nunca antes neste país, o PC chinês e seus líderes fizeram mais pelo Brasil do que qualquer dos nossos partidos políticos e suas lideranças.

ROBERTO MACEDO -ECONOMISTA (UFMG, USP, HARVARD); PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP; É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2012 | 02h11

Quem segue meus artigos sabe que defendo a tese de que as duas principais forças que impulsionaram o crescimento do Brasil no período 2004-2008 e em 2010 foram a expansão da economia mundial e a do crédito doméstico. Na primeira expansão a China teve enorme papel, pois o forte crescimento de sua economia levou a um vigoroso aumento de suas importações, em particular beneficiando o Brasil. Com isso nosso país pôde expandir sensivelmente suas exportações de commodities agrícolas e minerais, e a preços muito maiores. E não só para a China, mas também desses e de outros produtos para vários países, como a Argentina, que também se beneficiaram da maior demanda chinesa, e viram crescer suas economias a taxas mais elevadas.

Sobre a influência econômica chinesa no Brasil recorro também à notícia na Folha de S.Paulo do último domingo intitulada PIB do Brasil fica mais atrelado ao ritmo chinês, baseada em estudo da Pimco, uma grande administradora internacional de fundos de investimentos. Segundo ele, entre 2005 e 2007 cada 1% de aumento do PIB chinês levava a apenas 0,1% de aumento do brasileiro. Mas esse número teria aumentado muito nos anos seguintes e alcançado 2,4% entre o segundo trimestre de 2011 e o mesmo período de 2012.

Na mesma matéria, o governo brasileiro nega que a dependência da China seja grande, afirmando que as exportações do Brasil representam apenas 12% do PIB, e já vi dados de que as destinadas àquele país correspondem só a 2% do mesmo PIB.

Entendo que os dois primeiros números da Pimco subestimam a importância da influência econômica chinesa no Brasil, que os dois últimos carecem de reexame e que não se pode avaliar tal importância apenas pelos números de exportação brasileira para a China. Não sei de estudos que tenham examinado a questão com maior amplitude e o rigor metodológico de que carece. Uma análise desse tipo deveria averiguar tal influência nas várias formas em que aqui se manifesta, e levando em conta a interação de todas no contexto de um processo. Em particular, ela não se deu somente pela demanda chinesa por nossas exportações, mas também, como já dito, por seu impacto nas exportações de outros países para a China, efeito esse que neles gerou renda e ainda ampliou suas importações do Brasil.

Aqui, entre outros aspectos, deveriam ser contados os efeitos multiplicadores de todas essas exportações ampliadas, que geraram demanda interna, impostos para o governo e, também como nunca antes neste país, forte expansão de nossas reservas de moeda forte, que robusteceram Brasil ante crises externas. Com elas escapamos de efeitos mais fortes da crise do biênio 2008-2009, que, embora mais acentuada que outras passadas, não teve os efeitos desastrosos de então, de forte desvalorização do real, aumento da inflação e da dívida pública dolarizada, seguidos de medidas econômicas recessivas.

E mais: sem os ventos favoráveis da China e da economia mundial, e os impostos adicionais que trouxeram, Lula teria enfrentado enormes dificuldades para ampliar os gastos sociais de que tanto se gaba, mas cujo efeito sobre a expansão econômica ocorrida em seu período tem sido exagerado. O Bolsa-Família, por exemplo, tem uma dimensão perto de apenas 0,5% do PIB e a expansão dos benefícios do INSS, decorrentes do aumento do salário mínimo, alcançou cerca de 3% do PIB.

Em comparação, a outra fonte de estímulo já citada, a expansão do crédito, chegou perto de 25% do PIB. Mas as condições básicas para que ocorresse foram criadas no governo FHC, que com o Plano Real estabilizou a moeda nacional e levou a taxas de juros mais baixas, dois movimentos fundamentais nessa expansão. Neste caso, Lula teria de agradecer a seu antecessor, o que seria pedir muito.

Mas se Lula fosse convidado para uma visita à China, agora com mais tempo na sua condição de ex-mandatário, sua estadia seria oportuna e poderia ser proveitosa para aquele país. Em que pese seu imenso prestígio econômico, a China é sabidamente frágil na proteção social dada pelo governo, em particular na previdência e na assistência social, com o que as pessoas dependem fortemente do apoio de suas próprias famílias. Pelo que li, ainda predomina o primitivo sistema, que chamo de "bolsa da família", em que carentes, idosos e doentes se sustentam com recursos dela. E Lula é pós-graduado em gastar dinheiro público em programas sociais, com bolsas e desembolsos de todo tipo.

De nossa parte, alguém deveria, em reciprocidade, convidar o presidente Hu Jintao a vir ao Brasil, para ensinar aos nossos governantes como aumentar nossa taxa de investimentos. Ou seja, aquela proporção do PIB que não é consumida, mas destinada à ampliação da capacidade produtiva do país, na forma de fábricas, metrôs, estradas, aeroportos, escolas, hospitais, fazendas e tudo mais que possa produzir mais bens e serviços. Neste caso, a China, que investe mais de 40% do seu PIB, ganha de lavada do Brasil, cuja medíocre taxa está em torno de apenas 18%.

Por essa razão a China cresce muito e o Brasil cresce pouco. Aqui é preciso martelar isso à exaustão, para que definitivamente aprendamos o que deveria ser óbvio. Isto é, que a preponderância de incentivos ao consumo não leva pessoas, famílias e países pelo caminho da prosperidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.