IDH entre regular e ruim

Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medido pela expectativa de vida, pelos anos de escolaridade e pela renda per capita, a nota do Brasil em 2011 foi 0,718, numa escala que vai de 0 a 1, o que nos valeu a 84.ª posição entre 187 países analisados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Desde o ano passado, porém, em resposta a críticas de que o indicador não levava em conta as condições reais de vida dos diversos países, o Pnud introduziu o fator desigualdade de renda, criando o IDH-D. Por esse índice, cuja base é só de 134 países, a nota do Brasil cairia para 0,519, abaixo das da Armênia, do Gabão e da Mongólia, entre outros. Assim, as contradições do desenvolvimento brasileiro estão expostas ao mundo - o que deixou o ex-presidente Lula "iradíssimo".

O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2011 | 03h06

Apesar dos programas de transferência de renda, como o Bolsa-Família, ainda é muito extensa no Brasil a "pobreza multidirecional", ou seja, o estado de indigência em que estão cerca de 400 mil pessoas. Pior que isso, há 5,1 milhões de brasileiros vivendo com baixíssimas condições de salubridade, sem acesso a redes de esgoto, coleta de lixo e mesmo sem água encanada, para não mencionar as escassas possibilidades de educação adequada.

O desconto na nota brasileira relativa à renda, levando em conta a desigualdade, foi de 40,7%, o que coloca o Brasil como o terceiro país de renda mais desigual entre os de desenvolvimento mais avançado. O quadro fica menos desalentador sabendo-se que o Brasil também evoluiu em termos de distribuição de renda. Em 1990, quando o Pnud passou a divulgar o IDH de vários países, o Brasil era o mais desigual entre 45 países selecionados. A renda média dos 20% brasileiros mais ricos equivalia a 34 vezes a dos 20% mais pobres. Hoje a proporção é de 18, o que se reflete na incorporação de grandes parcelas da população ao mercado de consumo, graças à expansão da massa salarial e, particularmente, do aumento real do salário mínimo.

Entre os Brics, o Brasil está em posição abaixo da Rússia (66.ª no ranking, com nota de 0,755), mas em condições melhores que as da China (101.ª com 0,687) e da Índia (134.ª com 0,547). A expectativa de vida do brasileiro, que era de 66,3 anos em 1990, chegou a 73,5 anos em 2011, período em que a renda per capita anual se elevou de US$ 6,978 para US$ 10,162 (valores deflacionados).

No quesito educação, a nota brasileira também teve grande desconto, de 25,7%. A média de anos de escolaridade para os maiores de 25 anos é de 7,2 anos, insuficiente para a conclusão do curso secundário. O futuro parece mais brilhante, pois se espera, segundo o Pnud, que os brasileiros mais jovens de hoje tenham, em média, 13,8 anos de escolaridade. A projeção é até otimista, se se considerar, por exemplo, que, segundo o Censo de 2010, a taxa de analfabetismo era de 9,6% da população, compreendendo então 14 milhões de pessoas, para não mencionar os chamados analfabetos funcionais.

Claramente, os níveis de educação no Brasil não são condizentes com a renda per capita do País, superior à de países que apresentam índices melhores de desenvolvimento humano. Entre as quatro grandes categorias em que o Pnud divide os países analisados - desenvolvimento muito alto, alto, médio e baixo -, o Brasil está no segundo grupo, mas apresenta uma nota abaixo da média global (0,741) e inferior à nota média da América Latina (0,731).

Se existe uma correlação entre o ritmo de crescimento econômico e o desenvolvimento humano, ela até agora não tem sido relevante. Segundo o relatório do Pnud, o IDH brasileiro cresceu a uma média anual de 0,69 de 2000 a 2011, ligeiramente abaixo da expansão de 0,70 dos países em desenvolvimento humano alto. Uma das possíveis explicações para esse descompasso, segundo técnicos do Pnud, pode estar associada a uma oferta de trabalho que não exige maior escolaridade. Isso, ao que parece, hoje em dia não mais reflete o avanço da economia nacional. Com um crescimento mais acelerado em anos recentes, para poder continuar essa expansão, o Brasil precisa justamente de muito mais técnicos e trabalhadores capacitados, inclusive de nível médio.

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