Iguais, porém diferentes

Demóstenes Torres tropeçou no seu próprio "mensalão". Exatamente como aconteceu com o PT em 2005, depois de passar vários anos fazendo o papel de vestal, de missionário da ética e impiedoso acusador dos desencaminhados, o senador goiano foi desmascarado pela evidência irrefutável de que mantém relações promíscuas com o notório Carlinhos Cachoeira, chefão da jogatina, cujos interesses escusos tem defendido junto à administração pública. Até aí, tudo igual ao que se tem assistido na política. A diferença está no comportamento dos partidos envolvidos em escândalos. O PT nega até hoje a existência do plano urdido e executado por José Dirceu para compra de apoio parlamentar ao governo Lula e age politicamente para blindar os réus do processo que se arrasta no STF. O DEM, como já fizera no caso do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, de imediato cobrou publicamente explicações de seu filiado, num procedimento que inevitavelmente resultaria numa expulsão - que só não ocorreu porque Demóstenes se antecipou e pediu desligamento do partido.

O Estado de S.Paulo

04 Abril 2012 | 03h09

O comportamento de Demóstenes Torres é imperdoável, principalmente pela profunda decepção que causou aos homens de bem que viam nele um denodado defensor da ética na política. Foi ele quem declarou, em 2007, na condição de relator da CPI do apagão aéreo, que "corrupção é um negócio suprapartidário" e que "os malandros estão em todos os governos" - e ele bem o sabia. Hoje, para regozijo dos corruptos, sobre Demóstenes Torres alguém poderá afirmar o mesmo que ele próprio afirmou sobre seu ex-correligionário José Roberto Arruda, forçado a renunciar ao governo do Distrito Federal por seu envolvimento no chamado "mensalão do DEM": "É um bandido, um delinquente, um vagabundo".

Os desdobramentos desse lamentável episódio nos campos da política e da Justiça são imprevisíveis num país em que o império da lei costuma ser muito relativo. O próprio Demóstenes já estaria convencido de que está "politicamente morto". Mas o fato é que, com seu condenável desvio de comportamento no exercício de um mandato que conquistou nas urnas e não soube honrar, Demóstenes Torres se revelou mais um agente - e beneficiário - da alarmante contaminação do ambiente político-institucional pela lassidão moral e ética, que vem acompanhada pela tolerância a "malfeitos" praticados por quem frequenta os círculos do poder e, consequentemente, pelo sentimento de impunidade que torna cada vez mais insaciáveis e ousados os bandidos travestidos de homens públicos.

Menos mal que a liderança do DEM se revelou mais uma vez atenta à necessidade de cortar pela raiz as ameaças a sua imagem pública, tratando de evitar que o comportamento criminoso de um de seus mais destacados líderes viesse a comprometer a credibilidade política do partido. Em acentuada decadência nos últimos anos, em termos de representatividade eleitoral, um escândalo dessas proporções poderia levar a legenda a um beco sem saída. De qualquer modo, a atitude dos democratas é exemplar, principalmente se comparada à de outros partidos, entre eles muitos dos que se aconchegam na base aliada, PT e PMDB à frente. Para esses, que como paradigma preferem os líderes que passam a mão na cabeça de seus "aloprados", parece prevalecer o princípio de que ética é uma coisa muito simples: basta não ser pego com a boca na botija.

O desmascaramento do falso moralista Demóstenes Torres sugere ainda uma reflexão relativa ao pivô do imbróglio, o notório Carlinhos Cachoeira. Há quase dez anos esse meliante se envolveu em episódio de suborno que se transformou no primeiro de uma longa série de escândalos de corrupção do governo Lula. Trata-se, portanto, de figura conhecida. No momento - mas provavelmente não por muito tempo - permanece detido por ordem da Justiça, a pedido da PF, que investiga o jogo ilegal em Goiás. Até onde terá chegado esse indivíduo, agindo com desenvoltura - e impunemente - há anos, graças a suas privilegiadas relações políticas?

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