Impasse na Colômbia

No momento em que completa dois anos, a negociação de paz entre o governo colombiano e a guerrilha marxista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) atravessa sua pior crise - justamente quando parecia progredir e encaminhar-se para um bom desfecho. O diálogo foi suspenso pelo presidente Juan Manuel Santos na segunda-feira, um dia depois que as Farc sequestraram um general. Para Santos, o processo só será retomado se a guerrilha libertar o militar. "O compromisso das Farc está posto à prova. De sua decisão depende a continuidade do avanço até o final do conflito e a reconciliação", disse Santos.

O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2014 | 02h06

Os sequestros realizados pelos grupos guerrilheiros são um tema particularmente sensível na Colômbia. Um estudo publicado no ano passado pelo Centro de Memória Histórica de Bogotá mostrou que cerca de 40 mil pessoas foram sequestradas entre 1970 e 2010 - uma verdadeira indústria destinada basicamente a financiar as atividades guerrilheiras. As Farc, responsáveis por quase 40% desses casos, chegaram a ter 400 civis ao mesmo tempo em cativeiro, muitos dos quais mantidos lá durante meses ou anos, sem nenhum tipo de contato com seus familiares. Como a maioria dos sequestradores permanece impune, trata-se de uma ferida aberta.

Foi provavelmente essa dor nacional que Santos levou em conta ao decidir suspender o processo de paz, depois que se noticiou o sequestro do general Rubén Alzate e de dois acompanhantes, o cabo Jorge Rodríguez Contreras e a advogada Gloria Urrego, em uma área rural no oeste do país.

Quando as negociações de paz foram iniciadas, em 2012, as Farc haviam se comprometido a interromper o sequestro de civis. O gesto devia-se menos às supostas boas intenções do grupo do que ao fato de que a guerrilha, sob intenso cerco militar e com poucos recursos, já não tinha mais capacidade para sequestrar civis importantes, isto é, que pudessem lhe render vultosos resgates.

Na mesma ocasião, porém, as Farc informaram que continuariam a sequestrar militares, pois os consideravam "prisioneiros de guerra". Portanto, a captura do general, da perspectiva das Farc, não viola nenhum compromisso assumido pela guerrilha.

Ademais, é bom lembrar que, por exigência do governo colombiano, a negociação de paz foi iniciada sem que houvesse um cessar-fogo - Santos temia que as Farc aproveitassem esse intervalo para recuperar suas forças. Nesses dois anos, o governo manteve suas operações militares contra a guerrilha, razão pela qual o sequestro do general Alzate pode ser visto como apenas mais um ato beligerante em uma guerra que não foi suspensa.

Foi essa a lógica que as Farc invocaram no comunicado em que reconheceram o sequestro do general. "Aquilo que o presidente chama de regras do jogo não pode valer só para as forças do Estado", afirmou a guerrilha na nota. Mas Santos não interpreta a situação dessa maneira. "Sejamos claros: ainda que estejamos negociando em meio a um conflito, as Farc têm de entender que não se chega à paz recrudescendo ações violentas e minando a confiança", disse o presidente em pronunciamento à TV.

Mesmo que um dos representantes das Farc no processo de paz tenha dito que é possível, no âmbito desse diálogo, chegar a um "mecanismo" para solucionar o caso do sequestro, o comando da guerrilha deixou claro que será uma negociação dura, pois o general Alzate tem "grandes contas pendentes" com a "justiça popular". Ao indicar que, nesse "julgamento", será necessário realizar um "demorado exame, no qual serão consideradas muitas coisas", a guerrilha sugere que o impasse pode ser longo.

O caso mostra que o processo de paz, que dava sinais de avanço e trazia otimismo, permanece suscetível ao jogo de força entre as Farc - que querem ditar termos sobre os temas mais importantes do pós-guerra - e Santos - que sabe que não pode parecer fraco diante da guerrilha, principalmente depois que quase perdeu a reeleição para um candidato cuja plataforma significava o fim das negociações.

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