Impasse nos EUA, risco global

A maior economia do mundo poderá entrar de novo em recessão no próximo ano, com redução de 0,5% do PIB, se o impasse entre republicanos e democratas levar a um novo arrocho fiscal, advertiu o Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos. Os políticos americanos agiriam muito bem se levassem a sério esse alerta, lançado por um organismo técnico e sem vínculo partidário. Se o desastre ocorrer, o impacto será global e nem os emergentes mais dinâmicos serão poupados. Os efeitos diretos e indiretos atingirão também o Brasil e aumentarão o risco de mais um ano - o terceiro - de crescimento industrial muito lento e de exportação estagnada. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá intervir emitindo mais dólares para estimular a atividade, mas isso também será ruim para a economia brasileira, porque o real voltará a valorizar-se e isso prejudicará de novo o comércio exterior do País.

O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2012 | 03h08

O Escritório do Orçamento divulga projeções econômicas duas vezes por ano. O documento lançado nesta semana chama a atenção para o risco muito próximo do chamado abismo fiscal. Há um impasse a respeito de como ficarão, no próximo exercício, os impostos e os gastos federais. O governo democrata propõe a manutenção de incentivos fiscais para a criação de empregos, de cortes de impostos para famílias das classes pobres e médias e a revogação dos benefícios concedidos aos muito ricos. Os republicanos defendem a contração dos gastos, especialmente com programas sociais, a preservação dos benefícios aos muito ricos e a eliminação dos estímulos concedidos a outros grupos. Sem acordo sobre esses temas, despesas serão cortadas automaticamente e programas de alcance social serão eliminados. Nesse caso, o país mergulhará no abismo fiscal - uma expressão muito usada há alguns meses. Esse é o risco apontado pelos economistas do Escritório de Orçamento do Congresso.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, chamou a atenção várias vezes para o perigo de uma política orçamentária muito restritiva a curto prazo. Ele defende um forte ajuste fiscal e uma política bem calibrada para reduzir o endividamento público, mas com uma qualificação importante: é preciso realizar uma correção gradual, deixando espaço, na primeira fase, para estímulos à reativação econômica. Num cenário de expansão mais firme será mais fácil e menos doloroso reequilibrar as contas públicas. Dirigentes e economistas do FMI têm proposto receitas semelhantes a essa tanto para os EUA como para vários países da União Europeia.

Não se trata só de tornar o ajuste mais suportável. Também está em jogo a eficiência da política. Com a retomada do crescimento e da geração de empregos, a arrecadação de impostos facilitaria a arrumação das contas públicas. Um sério programa de ajuste seria indispensável, mas com o maior esforço deixado para uma segunda fase.

Por enquanto, o Fed mantém a política de juros baixos, entre zero e 0,25% ao ano, e de troca de títulos públicos em carteira para estimular o barateamento do crédito de longo prazo. Mas a ata de sua última reunião indica a possibilidade de uma ação mais forte. Se os sinais vitais da economia continuarem muito fracos, poderá haver uma nova rodada de grandes compras de papéis públicos em circulação no mercado. Para isso será preciso emitir grande volume de dólares.

Já houve duas rodadas dessa política, conhecida pelo nome de afrouxamento quantitativo ou pela siglas QE1 e QE2 (quantitative easing 1 e 2). Um QE3 seria bem recebido nos mercados de ações, mas uma nova enxurrada de dólares provocaria a valorização do real e de várias outras moedas. Isso encareceria as exportações brasileiras e baratearia as importações.

Seria mais um tranco na balança comercial brasileira e na indústria do País, forçada a enfrentar, de novo, concorrentes favorecidos pelo desajuste cambial desencadeado no mundo rico. Uma política desse tipo seria bem menos provável se houvesse um acordo político para se evitar o abismo fiscal. O Brasil seria um dos beneficiários.

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