Impasses na COP-21

Iniciada com grandes expectativas – mais de 160 países, responsáveis por cerca de 90% das emissões globais, apresentaram suas metas de redução das emissões de carbono –, a primeira semana da 21.ª Conferência do Clima (COP-21) serviu para colocar os pés no chão. Ainda resta vencer muitas dificuldades para chegar ao tão esperado acordo climático, que limite de forma eficaz e abrangente as emissões de CO2.

O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2015 | 02h54

Além da controvérsia sobre o caráter do acordo a ser firmado – se o documento terá força legal para exigir dos países a diminuição de suas emissões –, há dificuldades para chegar a um acordo sobre o financiamento dos investimentos para as adaptações às mudanças climáticas nos países pobres. Conforme noticiou o Estado, o tema envenena as negociações entre as nações desenvolvidas – Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão, mais Europa – e o chamado G77+China, grupo formado por países emergentes e em desenvolvimento.

Na Conferência do Clima de Copenhague (COP-15), realizada em 2009, não se chegou a um acordo. As negociações fracassaram e, desde então, uma sombra de pessimismo paira sobre as cúpulas sobre o clima. Um dos poucos compromissos assumidos na COP-15 foi a transferência de US$ 100 bilhões pelos países desenvolvidos às nações em desenvolvimento até 2020.

Segundo cálculos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o valor transferido até o final de 2015 deve chegar a US$ 62 bilhões. No entanto, há controvérsias a respeito desse cálculo. Não raro, os países desenvolvidos incluem na conta valores transferidos a projetos sem relação direta com as adaptações às mudanças climáticas.

“Os países em desenvolvimento não foram consultados para dizer o que conta, para eles, como financiamento climático. Do jeito que funciona hoje, os países ricos dizem que deram ‘isso, isso e aquilo’ e eles podem contar qualquer coisa que queiram”, afirmou Timmons Roberts, pesquisador de temas ambientais. “Os países concordaram que se chegaria a US$ 100 bilhões por ano em 2020, mas falharam em concordar sobre o que deveria ser contado”, diz Timmons.

Isso vem dificultando as negociações em Paris sobre o financiamento pós-2020. Segundo Jan Kowalzig, da ONG Oxfam, “os países ricos se arrependem profundamente de terem concordado com a meta dos US$ 100 bilhões em 2009, porque agora estão sentindo toda a pressão”. Os países desenvolvidos temem desvios e casos de corrupção com as verbas destinadas às mudanças climáticas. Por sua vez, os países em desenvolvimento desconfiam das reais intenções das nações ricas de cumprir a cifra de financiamento acertada.

“Muitos países temem que países ricos deixem de investir em ‘ajuda ao desenvolvimento’, construindo uma escola, por exemplo, e passem a investir na construção de uma planta de energia solar para justificar os US$ 100 bilhões. Ora, para um país em desenvolvimento, como a Índia, que tem 800 milhões de pessoas na pobreza, a prioridade continua sendo a escola, não transição energética”, afirmou ao Estado um dos principais negociadores em Paris.

Não basta ter um consenso sobre a gravidade da situação climática. Para chegar a um acordo realmente eficaz, que limite as emissões de todos os países – e muito especialmente dos grandes poluidores, Estados Unidos e China –, é preciso realismo. Seja para estabelecer metas ambiciosas e medidas concretas de monitoramento dessas metas – afinal, a conservação do planeta exige uma forte guinada na matriz energética. Seja para reconhecer que, junto à preocupação com o meio ambiente, há outros importantes temas a serem enfrentados pelos países em desenvolvimento – educação e saúde, por exemplo – que não podem ser desprezados.

Cuidar do futuro do planeta é cuidar do meio ambiente e das pessoas.

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