Impostura reiterada

A presidente Dilma Rousseff decidiu mais uma vez desrespeitar os brasileiros ao lhes dirigir a palavra. Tanto no acanhado pronunciamento que fez a propósito do Dia do Trabalho - pela internet, para fugir de mais um "panelaço" - como na campanha publicitária para explicar o ajuste fiscal, a petista reafirmou as patranhas que seus marqueteiros inventaram para justificar o descalabro de sua administração.

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2015 | 02h04

A mensagem do Dia do Trabalho enfatizou que "a valorização do salário mínimo é uma das maiores conquistas" dos governos petistas. Segundo Dilma, o "aumento do poder de compra do trabalhador" está assegurado "por lei" até 2019. Fiel ao estilo "nunca antes", a presidente afirmou que tal política - "do meu governo", como frisou - fez o salário mínimo crescer 14,8% acima da inflação em seu primeiro mandato, o que teria beneficiado "45 milhões de trabalhadores e aposentados".

O discurso de Dilma, no entanto, omitiu alguns detalhes muito importantes. Como o reajuste do salário mínimo depende da variação do crescimento do Produto Interno Bruto nos dois anos anteriores, conforme manda a regra atualmente em vigor, a tendência para os próximos anos, em que a expansão do País será esquálida, é que não haja aumento real significativo. Simplesmente não há lei nem voluntarismo que modifiquem essa conjuntura.

Ademais, o crescimento real do salário mínimo no primeiro mandato de Dilma, citado com tanto orgulho pela presidente, foi inferior ao observado nos dois mandatos de Lula (38,3% no primeiro e 17,4% no segundo) e no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (30,5%). O economista Mansueto Almeida calcula que o salário mínimo no segundo mandato de Dilma, mantidas as projeções de crescimento, deverá ter reajuste real inferior a 4%, menor do que o verificado no segundo mandato de FHC (7,3%), em meio a uma grave crise econômica internacional.

Tem-se, portanto, um embuste na fria acepção da palavra: Dilma quer transformar má notícia em boa. No mesmo pronunciamento, tal fórmula foi usada para dizer também que "o trabalhador terá seu salário preservado e não irá pagar um imposto maior" porque a presidente enviou ao Congresso a correção da Tabela do Imposto de Renda. Ora, como a presidente certamente sabe, mas finge não saber, a correção é insuficiente para compensar a inflação e o reajuste dos salários, fazendo com que mais trabalhadores tenham de pagar imposto.

Já na peça publicitária do governo federal para explicar as medidas de ajuste fiscal, empilham-se imposturas as mais diversas, algumas já bastante conhecidas. Primeiro, ao falar da necessidade de aperto, diz que o mundo vive uma crise "desde 2008" - embora a maior parte dos países, inclusive os emergentes como o Brasil, já tenha saído dela.

Depois, afirma que "as tarifas de energia tiveram de ser reajustadas em função da seca", embora todos saibam que a explosão tarifária nas contas de luz é resultado direto de uma política inepta inventada por Dilma.

Se a presidente quer realmente recuperar um pouco da credibilidade perdida, deve parar de ofender a inteligência dos contribuintes. No entanto, premida pela necessidade de justificar-se ante tanto descalabro em sua administração, Dilma tem persistido no discurso mendaz. Não se esperava dela maior virtude que a existente no mundo da política. Mas esperava-se o mínimo: que ela, por ter deveres muito acima de interesses partidários e eleitoreiros, uma vez reeleita, reconhecesse seus erros e, principalmente, dissesse a verdade ao País neste momento de crise profunda. Mas não. Repete sem corar as mentiras que lhe possibilitaram a reeleição.

Assim, que não venham Dilma e seus partidários reclamar dos que batem panela ao ouvi-la falar. Esse barulho é a trilha sonora adequada para um governo que, mal começou, parece já estar no fim. Para que as caçarolas silenciem, a presidente deve, em primeiro lugar, assumir suas responsabilidades. Respeitando, será respeitada.

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