Incerta travessia

Transcorrem os dias deste chuvoso dezembro como as águas turvas e destrutoras dos rios de lama que sepultaram a vida entre as minas de ferro de Mariana e o mar capixaba. Essa é a melhor imagem do Brasil de hoje. Tudo parece conduzir a oceanos enlameados dos quais dificilmente sairemos vivos. Os autores da destruição foram, além da uma mineradora internacional, principalmente a Samarco e a Vale, duas empresas geridas pelos fundos de pensão em poder dos petralhas. Mas não afundaremos por dois motivos: o Brasil é muito grande, maior do que a cupidez de Lula e seguidores. E os brasileiros lutam para sobreviver. No entanto, a travessia é perigosa “como nunca dantes na nossa história” (para repetir a frase berrada infinitas vezes nos palanques lulistas). Nunca foi iludida de forma tão perversa a opinião pública. Nunca se roubou tanto. Jamais houve tamanha desfaçatez da parte dos responsáveis pela tragédia. A incompetência galgou patamares escatológicos.

Ricardo Vélez Rodriguez, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2015 | 03h02

Na origem da crise devemos identificar, primeiro, o espírito que a anima: o endeusamento dos donos do poder, convencidos de que, porque eleitos pela maioria dos brasileiros, podiam tudo para permanecer indefinidamente à testa do Estado. Essa ética totalitária que inspirou a aventura lulopetralha tem pai conhecido: o “messianismo político” presente, como perversa semente, no Contrato Social do pai do totalitarismo hodierno, Jean-Jacques Rousseau.

Era simples e transparente, como jingles de marqueteiro lulista, o arrazoado de Rousseau, que poderia ter sido militante petista (dadas as contradições internas entre o que ele pensava e o que fazia, bem como a absoluta falta de limites para imaginar o poder). No oitavo capítulo do opúsculo famoso, o filósofo considerava que se devia organizar o poder a partir de uma lista de mandamentos claros, que dariam ensejo à nova religião civil. Eis o princípio inspirador dela: “A felicidade geral da Nação decorre da unanimidade do corpo político”. Logo, pau na dissidência, a fim de conseguir a condição sine qua non da felicidade coletiva: a unanimidade. Banida a dissidência mediante o terrorismo de Estado, nasceria o homem novo, sem interesses individuais a defender, totalmente identificado com o interesse público. Essa seria a moral que daria ensejo ao novo reino da virtude. O “comitê da salvação pública” encarregado de fazer a faxina ética passou a receber vários nomes, ao longo da História, de acordo com os espertalhões de plantão que, nas várias épocas, se apropriaram da filosofia roussoísta, fossem eles jacobinos, socialistas, bolcheviques, maoístas, fascistas, nazistas, comunistas, bolivarianos, lulopetralhas.

Identificado o princípio inspirador das desgraças totalitárias dos séculos 20 e 21, presente nas trapaças lulopetistas, passemos ao julgamento que a opinião pública brasileira faz das desgraças que nos afligem. Não há dúvida de que Dilma Rousseff e o seu partido são responsáveis pelas calamidades que afetam a economia do nosso país. As “pedaladas fiscais” com que o governo tentou financiar a sua ação deletéria são hoje incontestáveis. E elas constituem crime de responsabilidade. O impeachment tem base legal. Não é golpe de Estado, como denunciam Lula et caterva. Já não bastasse o processo instaurado no Congresso, o Tribunal Superior Eleitoral põe também sobre o tapete da ilegalidade a eleição que guindou Dilma novamente ao poder em outubro de 2014. Além das “pedaladas” para turbinar as contas públicas fajutas, os petralhas teriam usado dinheiros escusos na campanha. Essa acusação, se não conduzir diretamente à cassação do mandato da atual presidente, ajudará, no entanto, a reforçar o julgamento em favor do impeachment. Como o fluxo e refluxo da maré, os eventos dos próximos meses estarão pautados pelas idas e vindas, neste vaivém típico dos processos parlamentares. É difícil de prever por quais atalhos se canalizará o atual julgamento político. O único que pode ser vislumbrado é o resultado da ação: o fim de um ciclo de messianismo político e de irresponsabilidade.

A tarefa de reconstrução deverá estar presidida pela ideia de responsabilidade em face do Brasil que legaremos aos nossos filhos e netos. Devemos pensar em termos de consenso nacional entre as várias forças que rejeitam a proposta totalitária. Ora, há setores que não se identificam com a monocórdia proposta lulopetralha. Segmento importante do PMDB já desembarca do Titanic que afunda. Esse grupo quer algo mais do que salvar a própria pele do naufrágio iminente: tenta pensar o Brasil do dia seguinte com o documento Uma ponte para o futuro, que, do ângulo econômico, propõe uma volta ao bom senso que controla o gasto público e abre as portas para o investimento privado. Em segundo lugar, temos os agentes identificados com o Ministério Público Federal e a magistratura que conduzem a Operação Lava Jato, com as dez propostas de gestão transparente do Estado apresentadas à opinião pública há alguns meses. Em terceiro lugar, temos a proposta do ex-presidente FHC, resumida em artigo recente, escrito com anterioridade à apresentação do pedido de impeachment. A respeito, frisava: “(...) Precisamos promover a coesão nacional, incluindo todos os dispostos a fazer as mudanças necessárias. Primeiro, no sistema partidário-eleitoral. Segundo, nas contas públicas, inclusive da Previdência. Terceiro, na burocracia, para fazer valer a impessoalidade e o profissionalismo, eliminando o sectarismo ideológico e a incompetência (...) com uma condicionante geral: nada a preço de silenciar a Justiça e entorpecer a Lava Jato e outras investigações em curso”. Em quarto lugar, temos o programa de campanha de Aécio Neves, que se identifica com os pontos essenciais das propostas mencionadas.

Esperamos que o bom senso prevaleça para o bem do Brasil. Só o que se vislumbra é o fim de um ciclo de messianismo político e de irresponsabilidade

*RICARDO VÉLEZ RODRIGUEZ, MEMBRO DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UFJF, É PROFESSOR EMÉRITO DA ECEME E DOCENTE DA FACULDADE ARTHUR THOMAS, LONDRINA. E-MAIL: rive2001@gmail.com

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