Indústria mais eficiente

Os ganhos de eficiência que se vêm acumulando desde o segundo semestre do ano passado, quando começou a retomada da produção, deixam a indústria mais preparada para absorver aumentos de custos, especialmente dos salários, sem os repassar para seus preços. Vão se abrindo espaços para a melhora da renda real dos trabalhadores. Pelo menos nesse aspecto, os eventuais aumentos salariais reais que os empregados da indústria obtiverem nos próximos meses não terão impacto inflacionário. Mas é preciso levar em conta que esses aumentos, que aquecerão a demanda interna, que já é intensa, vêm preocupando o Banco Central há algum tempo e tendem a se transformar no principal argumento para a elevação dos juros básicos pelo Copom, para arrefecer as pressões inflacionárias.

, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2010 | 00h00

Do ponto de vista estrito do relacionamento entre as empresas industriais e seus empregados, no entanto, os ganhos de produtividade da indústria ? medida pela relação entre a produção e o número de horas de trabalho pagas ? são uma boa notícia, pois mostram o vigor da recuperação do setor, permitem a melhora da renda dos trabalhadores e apontam para a criação de empregos.

Com base em dados da Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário divulgados na semana passada pelo IBGE, a empresa de consultoria Tendências calculou que a produtividade da indústria cresceu 2,53% nos 12 meses encerrados em fevereiro. É um resultado melhor do que o dos 12 meses até janeiro, de 0,42%, o que indica uma aceleração da recuperação da produtividade. Para março (os dados desse mês só serão conhecidos no início de maio), a consultoria espera novos ganhos de produtividade.

Com as altas acumuladas desde o segundo semestre de 2009, a produtividade da indústria já está no nível observado antes do início da crise mundial. Quanto ao custo unitário do trabalho (relação entre a folha de pagamento real e a produção), a variação em 12 meses até fevereiro é negativa, o que, como a evolução da produtividade no período, mostra que a produção está crescendo a velocidades maiores do que as do crescimento do emprego e da folha de pagamento.

Até o início de 2010, predominava entre os dirigentes das empresas industriais a opinião de que o ritmo de expansão do número de vagas seria bem mais lento do que o do aumento da produção, o que permitiria o crescimento contínuo da produtividade.

O desempenho da indústria no ano passado justificava essa expectativa. O recuo da produção em 2009 foi muito mais acentuado do que o do número de horas pagas, razão pela qual, na média do ano, a produtividade diminuiu 4,1%. Era natural, portanto, que os dirigentes da indústria previssem para 2010 crescimento mais rápido da produção do que do emprego.

Em períodos de grande oscilação da produção, como ocorreu no Brasil por causa da crise financeira mundial, o nível de emprego também oscila, mas mais lentamente e com amplitude menor. Demora mais para cair e cai menos, quando a produção se reduz. As empresas não têm como prever imediatamente a duração da crise e, por isso, procuram manter seus principais quadros, para não incorrer em custos de demissão e não perder seus profissionais mais preparados.

Na recuperação, o nível de emprego igualmente reage mais devagar e com menos intensidade. Antes de retomar as contratações, as empresas aumentam as horas extras, depois fazem contratações temporárias ou de pessoal terceirizado e só voltam a recontratar regularmente quando a recuperação estiver consolidada.

Na situação atual, como observou o consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial Júlio Gomes de Almeida para o jornal Valor[ ], [ ]a produtividade está sendo impulsionada pelos investimentos e pela racionalização de processos produtivos, o que tende a retardar ainda mais a recuperação do emprego.

Mesmo assim, a maior eficiência da indústria dá maior poder de barganha para os trabalhadores no momento de negociar seus salários.

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