Inflação cai, desafio continua

Até agora, o recuo da inflação decorreu principalmente da recessão

O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2017 | 03h00

Um pesadelo está em dissipação e essa é a primeira boa notícia embutida nos dados da inflação de janeiro. Os preços pagos no dia a dia – no supermercado, no ônibus, na loja de roupas, no cabeleireiro e assim por diante – subiram 0,38% no mês passado e 5,35% em 12 meses, metade do aumento acumulado um ano antes. As famílias começam a sair do sufoco. Daí a segunda boa novidade. Com o orçamento menos esfolado pelo encarecimento dos bens e serviços, consumidores poderão gastar mais, ajudando a movimentar o comércio e a produção. Se a inflação seguir em baixa, o Banco Central (BC) poderá continuar cortando os juros básicos, hoje em 13%. Este é o terceiro motivo de animação. Tanto empresas quanto famílias poderão ter planos mais ambiciosos com crédito mais farto e mais barato, e também isso ajudará a mover a economia. O efeito no mercado de emprego poderá ser um pouco demorado, mas a reativação acabará levando o País a uma nova etapa de contratações. 

Houve reações até de entusiasmo, no mercado, à divulgação dos novos dados da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em janeiro, o Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, cortou os juros básicos de 13,75% para 13% ao ano. Poucos dias depois, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, confirmou a ideia de um novo ritmo de redução dos juros. Os primeiros cortes, entre outubro e dezembro, haviam sido de 0,25 ponto cada um. Os últimos dados da inflação parecem apontar um cenário favorável a novas tesouradas de pelo menos 0,75 ponto, como a do mês passado. Alguns analistas citados pela Agência Estado mencionaram a hipótese de uma redução de até 1 ponto na próxima reunião do Comitê, prevista para 21 e 22 deste mês. A ousadia maior seria justificável, segundo esses economistas, mas acabaram, cautelosamente, apontando como mais provável uma nova baixa de 0,75 ponto. 

Essa parece mesmo a previsão mais segura, neste momento, embora ninguém possa descartar a hipótese de uma decisão mais audaciosa. Mas seria um erro concentrar a discussão nesse ponto e negligenciar questões fundamentais para a política econômica. Pouca atenção foi dada a essas questões, pela maior parte dos analistas, nos últimos dias. 

Boa parte desses economistas parece dar como garantida a trajetória declinante da inflação. Aumentaram as apostas num resultado final de 4,5%, a meta oficial, neste ano. Alguns chegam a projetar um número abaixo da meta para os 12 meses até dezembro. Mas qual a base para essas projeções? 

Até agora, o recuo da inflação decorreu principalmente da recessão. Esse efeito demorou a aparecer, mas a alta de preços acabou freada pelo desemprego, pela consequente retração do consumo e também pelo corte de gastos das empresas. Em resumo, a contenção da demanda, especialmente no setor privado, reduziu o combustível da alta de preços. Que acontecerá se a demanda voltar a crescer, ou se os preços forem pressionados por um aumento do dólar? 

Para avaliar as perspectivas da inflação é preciso considerar também a evolução provável das contas públicas. O Copom tem cortado juros com base em dois fatores – o comportamento mais favorável dos preços, a curto prazo, e a expectativa de avanço na correção dos desajustes fiscais. Tem havido algum avanço. O teto para despesas foi aprovado, já houve alguma contenção de gastos de custeio, há sinais de razoável apoio político à reforma da Previdência e o presidente Michel Temer tem conseguido entender-se com a base parlamentar do governo.

Mas o ajuste requer um esforço gigantesco e ninguém pode dar como certo, por exemplo, o cumprimento da meta fiscal deste ano (um déficit primário no limite de R$ 139 bilhões). Além disso, é preciso levar em conta as eleições de 2018 e as condições políticas para a manutenção de um programa de aperto. Tudo ficará menos difícil se a economia continuar reagindo, com mais negócios e mais impostos. Mas o trabalho ainda será enorme. Não é hora de relaxar e muito menos de dar o cumprimento da agenda como garantido. 

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