Influências da sorte nas candidaturas

Governador paulista edifica tijolo a tijolo a sua candidatura a presidente da República

*Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2016 | 02h50

Quase sempre carregado de sabedoria, Maquiavel dizia que a sorte comanda metade das nossas ações na vida, mas deixa a cada um controlar a outra metade. Com um cinismo só igualado por Oscar Wilde, séculos depois, ele afirmava que a sorte é mulher – e por isso precisa apanhar para aprender.

O filósofo florentino citava como exemplo da influência da sorte em nosso destino a impetuosidade de um rio torrentoso, que volta e meia arrasa e inunda, provocando sofrimento. Todos procuram fugir, por não resistirem ao seu ímpeto, mas, em que pese a fúria das águas, aos homens não é vedada, em tempos de calmaria, a possibilidade de agir preventivamente, construindo diques e canais.

A recomendação maquiavélica é a de que temos de fazer com que sorte nos ajude e influa em nosso destino. Exemplo dessa influência da sorte, nos dias presentes, está na posição em que se encontra o governador Geraldo Alckmin, que um ano atrás parecia haver caído em maldição. Sim, com as torneiras secas e as represas vazias, milhões de paulistas o responsabilizavam pela falta de providências prévias que permitissem enfrentar a seca (a maior dos últimos 70 anos).

Naqueles dias adversos, a sua imagem como homem público foi lá para baixo. Mas, por ser de sua natureza, e não por ter lido Maquiavel, o governador saiu à cata de outras torrentes de água capazes de ser interligadas às represas e realizou caras obras que aumentaram a capacidade delas.

Esse trabalho, com a ajuda de São Pedro, fez com que hoje tenhamos razoável abundância de água na Região Metropolitana de São Paulo. Ninguém mais amaldiçoa Geraldo Alckmin. Ao contrário, em parte pelo que realizou e em parte por ajuda da sorte, ele passou a ser mencionado repetidamente como o mais forte candidato à Presidência da República nas próximas eleições.

Ele fez a parte dele, ou seja, ajudou a si mesmo, mas, teve ajuda da sorte, porque se formou um novo quadro político nacional que lhe é favorável, com o abalo das candidaturas de outros concorrentes. Em São Paulo, por exemplo, seu mais forte adversário seria o ex-presidente Lula, que neste momento parece estar com sua candidatura (e até mesmo sua liberdade) irremediavelmente comprometida.

No PSDB, a mesma sorte que favoreceu Geraldo Alckmin faltou ao seu concorrente Aécio Neves. O paulista fortaleceu-se ao lançar e eleger João Doria Júnior para a Prefeitura de São Paulo, ao passo que o mineiro perdeu a eleição para Prefeitura de Belo Horizonte (Aécio já havia sido derrotado nas eleições para o governo do Estado de Minas Gerais). Sim, perdeu pontos com essas derrotas.

Candidato forte à Presidência da República, o ex-governador fluminense Sérgio Cabral Filho acabou preso e com isso ajudou a corrida de Geraldo Alckmin. O Estado do Rio de Janeiro enfrenta dias muito difíceis, parecendo estar no olho do furacão, sem no momento ter outro nome com o mesmo peso eleitoral.

Todos percebem que o quadro político muda como as nuvens, mas hoje, sem nenhuma dúvida, Geraldo Alckmin está na frente. Ele sabe que não é tão conhecido em outros Estados, mas não fica parado. Como parte de sua estratégia, conversa muito, todos os dias, por telefone com pessoas de outros Estados, incluídos colegas governadores. E vai correr o Brasil todo.

Está evidente que o governador paulista edifica tijolo a tijolo a sua candidatura, com o cuidado de deixar bem lubrificada eventual escapada para ser candidato por outro partido, na hipótese de lhe ser negado o PSDB. Alckmin tem um vice-governador que é seu aliado, Márcio França, a principal figura do PSB, e também parcerias com outras agremiações políticas – a principal delas com seu amigo pessoal deputado Campos Machado, nome mais influente do PTB. Esses partidos representam a opção de uma candidatura em coligação.

Concorrente de Alckmin na disputa pela indicação do PSDB, José Serra encontra-se em posição política também favorável, a de ministro das Relações Exteriores. Esse cargo apresenta-lhe a vantagem de poder aparecer nacionalmente com frequência maior ou menor, conforme atue.

Quando foi ministro da Saúde, José Serra alcançou grande notoriedade e por isso é possível que esteja desenhando para si próprio a repetição dessa conduta. Por uma circunstância própria da vida política, dificilmente dois fatos se repetem da mesma forma, em razão de alterações não previstas. Mas Serra é experiente, determinado e talvez imagine que terá a seu favor a máquina federal.

Alckmin e Serra sabem que somente um dos dois será candidato pelo PSDB, ou seja, o racha parece inevitável. Alckmin talvez leve a vantagem por sua força entre os eleitores e por ser governador eleito pelo terceira vez.

Ele parece haver entendido que a melhor forma de fazer política é acompanhar bem de perto tudo o que realiza no Estado de São Paulo. Para se ter uma ideia da sua disposição de chegar aonde pretende, basta ver que já visitou no mínimo duas vezes cada uma das 645 prefeituras paulistas. Mesmo as menores, de 2 mil habitantes, receberam sua visita e atenção – e isso, sem dúvida alguma, influi no ânimo do eleitorado.

A atenção por ele dada a cada um desses 645 municípios fez com que nas últimas eleições para o governo do Estado ele só fosse derrotado em Hortolândia. Essa disposição de correr o Estado, cidade por cidade, somente foi demonstrada anteriormente por Mário Covas, principal referência e exemplo seguido por Geraldo Alckmin. Ele não esconde seu respeito e admiração por Covas, citando-o com frequência nos discursos.

*Desembargador aposentado do TJSP, foi secretário da Justiça de São Paulo. e-mail: aloisio.parana@gmail.com

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