Inovação muito lenta

Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil estão crescendo muito lentamente. Por isso, a meta fixada para 2010 pelo Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional (Pacti 2007-2010) - considerada realista na época de seu anúncio, há três anos - não será alcançada. Neste ano, como antecipou o ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, esses investimentos deverão representar 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB), mais do que o índice de 1,2% registrado em 2009, mas abaixo da meta do Pacti, de 1,65% do PIB.

, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2010 | 00h00

Para continuar a crescer em ritmo acelerado, o Brasil precisa conquistar espaços cada vez maiores no mercado mundial, no qual o comércio que mais cresce é justamente o de bens cuja produção exige mais inovação e tecnologia. Estudo divulgado há pouco pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento aponta o Brasil como líder em pesquisa e inovação na América Latina. Embora importante, o resultado dessa pesquisa não serve de consolo. Na comparação com os países com maior peso no comércio mundial, o Brasil está mal.

Mesmo que alcançasse a meta do Pacti para 2010, o Brasil continuaria muito mal colocado na classificação dos países que mais investem em pesquisa e desenvolvimento. O resultado deste ano antecipado pelo ministro da Ciência e Tecnologia mostra que estamos investindo, proporcionalmente, menos da metade do que investem países que já ocupam posições de liderança no comércio mundial - como Japão, Coreia do Sul e Alemanha. E o resultado teria sido ainda pior se o governo não tivesse cumprido sua parte do plano lançado em 2007. Em quatro anos, garantiu o ministro Rezende, o governo terá investido R$ 41 bilhões, conforme foi previsto no Pacti.

"Faltou maior participação do setor privado, mais empresas investindo em inovação", observou o ministro, em encontro com a diretoria da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

No passado recente, problemas econômicos contiveram os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Até o início da década de 1990, o fechamento da economia desestimulava esse tipo de aplicação. As empresas que mais produtos lançavam eram subsidiárias de companhias estrangeiras, que desenvolviam pesquisas nas suas matrizes ou em centros instalados em outros países. A inflação descontrolada exigia que a gestão empresarial tivesse como foco a questão financeira, o que igualmente impedia o aumento dos investimentos em inovação.

Tudo isso é passado, mas o fato é que as empresas privadas continuam a investir pouco em pesquisa e desenvolvimento. Embora haja um grupo de empresas que perceberam a importância e necessidade da inovação - e investem na área, em média, duas ou três vezes o que investem as demais -, ainda é o governo que responde pela maior fatia dessas aplicações.

"Estamos num processo que ainda é novo no Brasil, mas que vai ganhar dimensão nos próximos anos", diz, com otimismo, o ministro Sérgio Rezende.

Alguns obstáculos e algumas propostas para superá-los têm sido discutidos por dirigentes de empresas e por pesquisadores. Um desses obstáculos está no sistema educacional, no qual não se dá a devida importância ao ensino de disciplinas científicas, como matemática, biologia, física e química. Com frequência os pesquisadores das universidades desconhecem a realidade do mercado, inclusive no que se refere a sua remuneração. A infraestrutura dos institutos de pesquisa é inadequada em boa parte dos casos.

Entre outras medidas para o fortalecimento da cultura da inovação no País, a Anpei propõe a adoção de critérios mais empresariais para o financiamento dos projetos dos institutos de pesquisa e a adoção de padrões internacionais de qualidade e remuneração para o aproveitamento profissional dos pesquisadores pelas empresas.

São sugestões que o próximo governo deveria examinar com atenção, para evitar que o Brasil fique para trás na corrida do desenvolvimento.

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