Insensatez mata

Confronto em Gaza é resultado de mais uma decisão impensada de Donald Trump

O Estado de S.Paulo

16 Maio 2018 | 03h00

Os números ainda não são definitivos, mas ao menos 60 pessoas morreram e cerca de 2.700 ficaram feridas durante os protestos contra a inauguração da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, o mais grave conflito entre palestinos e israelenses na Faixa de Gaza desde julho de 2014, quando as Forças Armadas de Israel lançaram a Operação Margem Protetora, que resultou na morte de 2.139 palestinos e 70 israelenses.

O derramamento de sangue palestino – até o momento não há registro de vítimas civis ou militares entre os israelenses – é resultado de uma sucessão de decisões desastrosas que serviram apenas para acirrar ânimos em uma das regiões mais instáveis do mundo.

Em boa medida, o confronto de segunda-feira é resultado de mais uma decisão impensada do presidente Donald Trump. Ao reconhecer a cidade de Jerusalém como capital do Estado de Israel e, consequentemente, transferir para a cidade a representação diplomática dos Estados Unidos, Trump complicou seriamente o já complexo conflito árabe-israelense. Não à toa, sua decisão foi condenada por quase todas as lideranças responsáveis da chamada comunidade internacional.

O confronto começou com uma tentativa de invasão da fronteira de Israel pelos palestinos no dia da inauguração da embaixada americana. Merece registro a irresponsabilidade do Hamas, grupo que governa Gaza com mão de ferro. Por meio de alto-falantes, o grupo disseminou a falsa informação de que a cerca que separa os territórios israelense e palestino estaria rompida, o que permitiria a entrada dos palestinos em Israel para os protestos.

À inequívoca agressão dos palestinos sobreveio uma resposta absolutamente desproporcional dos soldados que guardam a fronteira israelense. Ataques com pedras e coquetéis Molotov foram respondidos com tiros de fuzil e outros artefatos explosivos, o que levou o Alto-Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos a exigir, inutilmente, a interrupção imediata dos disparos.

Totalmente disparatada também foi a reação do cônsul de Israel em São Paulo. Em entrevista ao Estado, Dori Goren comparou seu país a um lutador de sumô diante de uma criança travessa. “Imagine que Israel seja um lutador de sumô diante de um menino de 5 anos que começa a espetá-lo com uma agulha. O lutador pede várias vezes para a criança parar de perturbá-lo, mas ele continua. Até que uma hora ele perde a paciência e bate no garoto, quebrando vários dentes dele. Então, vem a mãe e faz um escândalo, perguntando se os jornalistas filmaram a agressão. Isto é o que está acontecendo em Gaza”, disse o diplomata, demonstrando com palavras a desproporção que os soldados de seu país demonstraram com balas.

O presidente Michel Temer lamentou o conflito. Por meio de sua conta no Twitter, prestou solidariedade aos feridos e às famílias dos mortos. “O Brasil faz um apelo à moderação, um chamado à paz”, escreveu o presidente.

Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que “o governo brasileiro reitera sua posição em prol de negociações que garantam o estabelecimento de dois Estados, vivendo em paz e segurança, dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas, e que assegurem o acesso aos lugares santos das três religiões monoteístas, de acordo com as resoluções do Conselho de Segurança, em especial a Resolução 478 (1980), e da Assembleia-Geral Nações Unidas”.

Ao reconhecer a cidade de Jerusalém como capital do Estado de Israel e transferir para lá a embaixada americana, o presidente Donald Trump deu mais um de seus eloquentes sinais de que, sob seu governo, a política externa dos Estados Unidos não será pautada pelo multilateralismo. Não há muito espaço para preocupações com complexidades geopolíticas ou com as consequências internacionais das decisões da Casa Branca quando o espírito que norteia a diplomacia americana está traduzido no slogan America First, que, a bem da verdade, estaria mais preciso como America Only.

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