Insolvência alcança as grandes

Enquanto o governo coleciona derrotas no Congresso e mal consegue iniciar o conserto de suas contas, a economia brasileira, afundada na recessão, bate mais um par de recordes negativos. Os 627 pedidos de recuperação judicial apresentados entre janeiro e julho foram o maior número registrado para o período a partir de 2006. A nova Lei de Falências havia entrado em vigor em junho de 2005. Outro recorde foi o número de requerimentos de julho: 135. Como sempre, as pequenas e microempresas compõem a maior parte das atingidas pela crise, mas as grandes se destacam, nesse balanço, pelo grande aumento dos casos. Os números são do relatório divulgado pela Serasa Experian, especializada em informações sobre crédito e conjuntura.

O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2015 | 03h00

Os pedidos de recuperação mais que dobraram entre julho do ano passado e julho deste ano. Passaram de 62 para 135 no mês passado, com aumento de 117,42%. Na comparação entre os primeiros sete meses de cada ano, a variação foi de 31,72%, de 476 para 627.

Considerado o período de janeiro a julho, o aumento foi de 261 para 323, no caso das micro e pequenas; de 139 para 174, no das média; e de 76 para 130, no das grandes. O número de ações iniciadas pelas grandes, neste ano, foi 71,05% maior que o de um ano antes. Essa variação foi mais que o dobro da média geral.

O aumento da insolvência é um efeito normal da retração econômica prolongada, mas o quadro brasileiro é mais complicado. A redução da demanda no mercado interno, com os consequentes problemas de faturamento, é só uma parte dos desafios. Além de enfrentar a recessão, as empresas vêm operando num ambiente de inflação elevada, combatida pelo Banco Central (BC) com seguidos aumentos de juros.

Desde o começo do ano passado a taxa básica, a Selic, subiu dez vezes. Em janeiro de 2014 passou de 10% para 10,5%. No último aumento, anunciado no dia 29 do mês passado, chegou a 14,25%. No mercado, o custo do dinheiro acompanhou esse movimento. Entre o fim de 2013 e junho deste ano, a taxa média para a pessoa jurídica, nas operações com recursos livres, passou de 22,2% para 27,5% ao ano, segundo levantamento do BC. 

Além de chamar a atenção para os problemas associados à recessão e ao crédito, os analistas da Serasa ainda apontam a alta do dólar como importante complicador. A depreciação do real pode ter gerado algum benefício para as indústrias, encarecendo os bens importados e barateando os produtos nacionais no exterior, mas também trouxe problemas.

Além de prejudicar quem depende de importação, elevou os custos financeiros das empresas com dívidas em moeda americana. O informe divulgado pela Serasa Experian vai até esse ponto, sem discriminar os problemas por grupos de empresas. Mas as grandes são, muito provavelmente, as mais afetadas pelo encarecimento das dívidas em dólares. Afinal, as micro, pequenas e médias têm menos acesso ao mercado internacional de crédito.

Como complemento, pode-se lembrar outro aspecto muito especial da recessão brasileira – além, é claro, de sua coexistência com a inflação elevada (raramente os dois fenômenos são simultâneos). A outra particularidade é o conjunto de efeitos da Operação Lava Jato, da crise política e, naturalmente, do saque da Petrobrás.

A combinação desses fatos tem prejudicado investimentos ligados a projetos do setor público e debilitado as finanças de grandes empreiteiras, com efeitos secundários sobre muitas fornecedoras. Também esses efeitos são componentes da crise econômica e se refletem, direta ou indiretamente, nas condições de solvência de muitas companhias. As dificuldades podem atingir tanto construtoras como fabricantes de insumos e lanchonetes na vizinhança das empresas prejudicadas.

Os dados sobre insolvência e sobre pedidos de recuperação judicial complementam o cenário da produção em baixa, do desemprego crescente e da demanda em queda, herança de muitos anos de má política e muita irresponsabilidade.

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