Integração sustentável para garantir a liderança

Vivemos um choque de transição: nos países emergentes, uma imensa classe média urbana vem se incorporando ao mercado consumidor, com o forte crescimento populacional previsto pelo menos até 2050. Para o agronegócio, isso demanda rápido aumento de produtividade, novos modelos de negócio e de instrumentos de gerenciamento da economia mundial. Esse cenário aponta para uma nova revolução no uso sustentável de recursos naturais e nos processos de produção agroindustrial, que tende a reforçar o papel de liderança do produtor brasileiro no cenário internacional.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2015 | 03h00

Afinal, se o País não contribuir com o aumento de 40% no crescimento de 70% na oferta de grãos e carnes até 2050, preconizado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), poderá comprometer a oferta de alimentos. O quadro ganha contorno assustador ao se examinarem as estimativas de aumento na demanda de uma única commodity: o açúcar. Para atender à projeção do consumo dos países emergentes, nos próximos dez anos será preciso uma produção extra de 3 milhões a 4 milhões de toneladas por ano. É um novo Nordeste açucareiro ao ano. E em relação às demais commodities não é diferente, principalmente no caso da proteína animal.

Para o agronegócio brasileiro, a situação é desafiadora, mas, ao mesmo tempo, representa um grande potencial de desenvolvimento. Nesse sentido, faz-se necessário um ambiente econômico interno marcado por forte investimento em desenvolvimento tecnológico, com mais acordos comerciais com blocos econômicos que realmente são relevantes no mundo desenvolvido, numa verdadeira integração com a economia global, alavancando negócios e dinamizando todos os segmentos econômicos nas cadeias produtivas. Também deveríamos estar investindo muito mais em logística e em infraestrutura, o que resultaria em menores custos e maior competitividade de todas as empresas.

Neste contexto, vale destacar que nós, do agronegócio, temos consolidado uma série de estudos com propostas concretas sobre as obras prioritárias, sobretudo aquelas localizadas nos principais corredores produtores de grãos do Centro-Oeste. Todas as análises, realizadas por técnicos e especialistas em logística, comprovam que, se realizados, esses investimentos efetivamente resultariam em redução nos custos de armazenamento e escoamento da produção agrícola brasileira.

Não há a menor dúvida de que precisamos diminuir nossas despesas com logística, pois os dados consolidados mais recentes apontam uma enorme diferença entre o custo do transporte de grãos das nossas lavouras até os portos e o que ocorre nos países que são os nossos principais concorrentes. Comparativos feitos com base na safra de 2013 entre o escoamento das safras brasileiras, argentinas e norte-americanas mostram que o transporte de uma tonelada de grãos entre as fazendas brasileiras e o porto chegava a US$ 92, ante apenas US$ 23 nos Estados Unidos e US$ 20, no caso da Argentina.

O mais grave desse quadro é perceber que tal situação vem se deteriorando ao longo dos anos, pois o mesmo estudo mostrou que, dez anos antes, os custos brasileiros eram maiores do que os norte-americanos e argentinos, mas a diferença não era tão expressiva. Em 2003, enquanto uma tonelada de grãos transportada das fazendas brasileiras até os portos custava US$ 28, nos Estados Unidos não passava de US$ 15, valor quase equivalente aos US$ 14 de custo na Argentina.

Tomar medidas para reduzir o custo logístico ganha ainda mais importância neste momento de queda nos preços das commodities. E redução de custos é uma prática com a qual o produtor brasileiro está habituado. Fazer mais com menos é o tom que vem sendo adotado há vários anos no agronegócio brasileiro. Traduzido em medidas concretas, isso significa elevados investimentos em tecnologia e novas formas de manejo que têm proporcionado aumento de produção sem praticamente nenhum aumento na área plantada; diversificação produtiva e a realização de até três colheitas por ano; intensa recuperação de solos degradados; rotação de cultura e disseminação do conceito iLPF (integração lavoura/pecuária/floresta).

Em razão dessa atuação, o segmento vem se consolidando como o grande esteio do recente período de instabilidade econômica vivido pelo País, uma vez que tem respondido por até 40% das exportações, 25% do Produto Interno Bruto (PIB), além de ter dado relevante contribuição ao conseguir manter estáveis os preços dos alimentos no mercado interno, o que tem impedido descontrole inflacionário ainda maior.

Tudo isso com uma atuação que tem a marca da sustentabilidade ambiental, na medida em que o setor consegue se colocar como uma alternativa global para garantir o atendimento da demanda por alimentos e energia mesmo com as projeções de crescimento efetivo da população e aumento da renda per capita, acompanhados do acelerado processo de urbanização e dos novos hábitos alimentares que deverão ser confrontados com os limites dos recursos materiais no planeta.

A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), assim como outras instituições dos segmentos do agronegócio, tem se empenhado continuadamente em reunir a inteligência nacional nos âmbitos da tecnologia, das políticas públicas e de gestão, para trazer luz aos temas sobre as possibilidades e oportunidades proporcionadas pela diversidade e eficiência da agropecuária tropical brasileira. Especialistas das mais diferentes correntes de pensamento são permanentemente convidados para reflexões amplas e pluralistas sobre os principais desafios a serem encarados nos próximos anos pelo agronegócio brasileiro, assim como para pensar, com a participação dos diversos segmentos de nossa sociedade, em soluções racionais para os nossos entraves.

*Luiz Carlos Corrêa Carvalho é presidente da ABAG

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