Inundação, de novo

As cenas de ruas inundadas, com carros e móveis boiando e moradores andando com água até a cintura, mostram o quanto a população de São Paulo fica desprotegida em situações como essa

O Estado de S.Paulo

22 Março 2018 | 03h00

A chuva que caiu terça-feira em São Paulo – que deixou três mortos e seis feridos, derrubou mais de 60 árvores e castigou a população com a paralisação de vias importantes, causando grandes congestionamentos – veio lembrar mais uma vez que a cidade continua despreparada para enfrentar situações como essa, apesar de alguns avanços feitos nas últimas décadas para reduzir os efeitos das enchentes. As benfeitorias beneficiam determinadas regiões, mas no conjunto a capital paulista sofre com os efeitos de qualquer chuva mais forte.

As cenas de ruas inundadas, com carros e móveis boiando e moradores andando com água até a cintura, mostram o quanto a população fica desprotegida em situações como essa. Nas áreas mais expostas às enchentes, muitas famílias perdem quase tudo. O Corpo de Bombeiros registrou 25 ocorrências de desabamentos e de pessoas ilhadas. O quadro das agruras dos paulistanos foi marcado também por grave perturbação em todo o sistema viário, com 26 vias intransitáveis por alagamentos, em várias regiões.

Boa parte delas é da maior importância para o bom funcionamento do sistema, como a Marginal do Tietê e as Avenidas 23 de Maio, Rebouças e 9 de Julho, que ficaram com pontos inundados. Que a Marginal do Tietê, pela proximidade do rio que margeia, ainda apresente problema como esse já é grave, tendo em vista obras quem vêm sendo feitas há muito tempo para evitar pontos de alagamento. Mas que isso ocorra também numa via como a 23 de Maio é algo dificilmente compreensível para os paulistanos. As cenas de alagamentos nessa avenida foram particularmente chocantes, porque deixaram a impressão de que nenhum setor da cidade está imune aos efeitos das chuvas.

Inundações não são privilégio de São Paulo. Outras grandes cidades em todo o mundo também podem enfrentar percalços semelhantes provocados por chuvas excepcionalmente intensas. Mas não com a frequência e a amplitude de São Paulo. É isso que torna singular e grave o seu caso. E isso não se explica apenas por causas naturais, como a intensidade de chuvas como a de terça-feira. Nesse dia, a precipitação média na capital foi de 35,1 milímetros, 20% acima do esperado para essa época. Mas é evidente que uma cidade do porte e da importância de São Paulo tem de se preparar para tais situações. 

São Paulo tem também uma desvantagem histórica, que foi seu surgimento numa região de várzea especialmente vulnerável a inundações. Uma situação que se agravou com o acelerado processo de urbanização, sobretudo a partir dos anos 1960. Uma expansão desordenada que permitiu a ocupação ainda mais intensa das várzeas e impermeabilizou o solo. Todas essas são condições que facilitam as inundações de áreas habitadas.

Essa situação é irreversível – não se destruirá parte da cidade para evitar inundações –, mas pode ser amenizada. As soluções já são bem conhecidas. Uma – óbvia, porque é o que se faz no mundo inteiro, em qualquer cidade bem administrada – é um serviço eficiente de limpeza urbana, para impedir o entupimento de bueiros, e um sistema de galerias pluviais capaz de garantir o escoamento das águas mesmo em ocasiões de chuvas intensas. É notório que nada disso é feito como se deveria. Entra governo, sai governo e não se avança na melhoria desse que é um serviço essencial. 

Outra solução é a construção de piscinões. Avanços importantes foram feitos nessa direção. Em várias regiões da cidade são conhecidos os efeitos benéficos dessas obras para reter as águas, quando das chuvas fortes, e evitar inundações. Um dos melhores exemplos, e dos mais antigos, é o do piscinão do Pacaembu, que acabou com as enchentes na região.

Todos sabem quais são os caminhos a seguir para minorar os efeitos das chuvas e evitar que São Paulo continue a passar por desastres das dimensões do ocorrido terça-feira. Não há, portanto, desculpa para o que acontece. 

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