Invasão afronta a democracia

É criminoso o ato dos estudantes que invadiram a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) para pleitear uma CPI da merenda. É ainda mais grave a omissão das autoridades constituídas que nada fizeram para obstar flagrante ilegalidade. Como também é gravíssima a “solidariedade” aos invasores feita pelos políticos da oposição, como se a violência pudesse ser um legítimo meio de defesa de ideias e posições políticas. No lamentável episódio quem sofre é a democracia, ao ver-se refém de quem não tem qualquer respeito pela lei.

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2016 | 03h00

Na tarde de terça-feira, um pequeno grupo de estudantes da rede estadual – cerca de 70 – invadiu o plenário da Alesp para exigir a instalação de uma CPI para apurar denúncias de desvios de recursos da merenda. Aos gritos de “ocupar e resistir”, estenderam faixas, subiram nas mesas e lá ficaram. Como ninguém os desalojou, dormiram tranquilamente na Assembleia. Funcionários relataram que mesas e computadores foram quebrados, mas os estudantes negaram a autoria dos atos de vandalismo.

Ao que parece, depois de tantos elogios que os estudantes receberam pelas invasões e ocupações das escolas em 2015 – como se tais atos fossem o suprassumo da participação democrática –, eles aplicaram a mesma tática de intimidação na Alesp. É uma irresponsabilidade fazer vista grossa para a violência sempre presente em tais atos. Não se pode esquecer de que invasão – seja de escola, seja de repartição pública e muito especialmente de uma Assembleia Legislativa – é sinônimo de violência. Não existe invasão pacífica. Trata-se sempre de claro desprezo pela ordem constituída, fazendo com que a força dê a última palavra. Na invasão não há diálogo, já que não há respeito pela posição contrária. A disjuntiva desses estudantes – ou somos atendidos ou invadimos – está longe de ser democrática. É pura selvageria.

A questão central, no entanto, não está na atuação dos estudantes. Não é de estranhar que alguns deles queiram fazer baderna. Sempre houve e sempre haverá esse tipo de confrontação. A novidade – que infelizmente já está se tornando rotina – é o aplauso dos adultos a esse tipo de atuação. Na ocupação das escolas, houve pais defendendo atos violentos e ilícitos de seus filhos como se eles fossem heróis da resistência. Sim, resistem à lei e ao bom senso. Antes, isso era motivo para um bom castigo dos progenitores. Agora, parece ter-se transformado no orgulho de algumas famílias.

Na tarde de terça, no entanto, viu-se que a confusão não está apenas em alguns pais. As autoridades constituídas, que deveriam agir prontamente contra flagrante ilegalidade – sem necessidade, como é lógico e razoável, de qualquer autorização judicial –, assistiram passivamente à baderna dos estudantes na Alesp.

É no mínimo problemático constatar que quem deveria fazer valer a lei se omite com medo de possíveis reações contrárias. Como se pôde constatar, não são apenas os estudantes que desprestigiam a lei. As próprias autoridades parecem estar um tanto envergonhadas de fazer cumprir a lei.

Triste papel também foi feito por alguns políticos da oposição ao governo Geraldo Alckmin, que viram no episódio uma oportunidade para tirar proveito político. Foram prestar homenagem aos estudantes invasores, oferecendo-lhes lanches para que estes, bem alimentados, pudessem continuar ocupando a Alesp.

Não é preciso dizer que esses políticos pouco entendem de democracia. Não perceberam que estavam a homenagear quem desonra a casa símbolo da democracia. Quando invadem a Assembleia Legislativa, os estudantes estão afrontando a democracia. Ao impedir o funcionamento da Alesp, os estudantes invasores estão calando os representantes legitimamente eleitos – calam, assim, a sociedade, que fica refém de 70 estudantes. A oposição, no entanto, está alheia a tudo isso, extasiada com o desgaste que o episódio pode trazer ao governo estadual.

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