Inversão de valores

Três dias depois de a presidente Dilma Rousseff ter classificado a violência dos black blocs como "barbárie antidemocrática", prestando solidariedade ao coronel da PM paulista por eles agredido, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, afirmou que reprimir o grupo "não resolve a profundidade do problema" e que o governo deve dialogar com ele.

O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2013 | 02h15

A dubiedade do Planalto com relação aos mascarados do Black Bloc tem motivação eleiçoeira. Com a solidariedade ao coronel espancado e as críticas aos que o surraram, Dilma cortejou o eleitorado no mesmo dia em que institutos de pesquisa divulgaram levantamento revelando que 95% da população desaprova os atos do grupo. E com a proposta de "dialogar" com os black blocs, sob o pretexto de "compreender esse fenômeno social", Gilberto Carvalho cortejou politicamente os movimentos sociais. Batendo no cravo e na ferradura, dá ao PT a imagem de um partido sensível à voz das ruas, enquanto os governadores dos Estados mais atingidos pela violência dos black blocs - como São Paulo, que está sob controle do PSDB - têm de enfrentar o desgaste de reprimi-los, para manter a segurança pública.

A exploração eleiçoeira de grupos de protesto que defendem a estratégia da "propaganda pela ação", recorrendo à depredação de fachadas de bancos, lojas de grifes e tudo o que simbolizaria o capitalismo, não é apenas insensata. Abre perigoso precedente ao conferir legitimidade a facções que recorrem à força para impor ideias e teses que não conseguem ver aprovadas por meios democráticos.

São grupelhos fascistas que, sob os mais variados pretextos, têm ocupado ruas, praças e prédios públicos procurando criar fatos que justifiquem a repressão e, por tabela, a produção de "mártires" capazes de comover a opinião pública. E, no momento em que a polícia é obrigada a agir, os governantes são desqualificados como opressores. Na carta de apoio enviada ao membro do Black Bloc preso depois de espancar o oficial da PM, seus colegas de escola - que não se identificaram - explicitaram a estratégia. "A simples presença da polícia cria uma tensão em todos. Como se negocia quando uma das partes possui uma arma?", perguntaram-se eles, numa flagrante inversão de valores. A pergunta certa é: como negociar com quem não aceita a ordem jurídica?

O mesmo problema também tem estado presente de forma cada vez mais recorrente nas invasões de prédios de universidades públicas. O caso da USP é exemplar. Depois de ter invadido a machadadas a reitoria, um pequeno grupo de invasores exige a impunidade por seus atos ilícitos como condição para sair do local. E juízes - que deveriam autorizar a reintegração de posse pedida pela USP - deixam de lado o direito e endossam a tese de que, ao bater nas portas dos tribunais, o reitor teria agido de "modo abusivo e autoritário", uma vez que a execução de decisões judiciais é feita pela PM e os recursos judiciais "criminalizam" os invasores. A Justiça "soube salvaguardar a dignidade cívica de manifestantes estudantis e cuidou para que agentes políticos e um gesto eminentemente político não fossem sumariamente desqualificados e facilmente criminalizados", afirmou a Associação dos Docentes da USP, esquecendo-se de que depredação de patrimônio público é crime.

A democracia é uma forma de regulação de conflitos. Na democracia, as leis são imparciais, impessoais e válidas para todos. A democracia não pode conviver com o vandalismo, sob o risco de ver corroída a segurança dos cidadãos. Aqueles que propõem um diálogo com os black blocs e tratam vândalos de forma leniente, como se fossem "heróis sociais", esquecem-se de que esse pessoal usa o discurso da democracia para tentar enfraquecer as instituições democráticas.

Apesar de carentes de qualquer representatividade eleitoral, esses vândalos querem ser aceitos como interlocutores legítimos. E o mais grave é que há aventureiros políticos e juízes ingênuos dispostos a negociar com eles.

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