Investimento, fator incerto

Será um erro muito perigoso depender apenas da iniciativa dos empresários, como indicam os últimos números do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 05h00

Se o governo pretende usar o investimento produtivo para mover a economia e tirá-la da recessão, deve cuidar com urgência de seus projetos de infraestrutura. Bons projetos poderão atrair capitais privados e dinamizar os negócios de vários setores. Será um erro muito perigoso depender apenas da iniciativa dos empresários, como indicam os últimos números do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o novo levantamento, o valor aplicado em máquinas, equipamentos e construções – na formação bruta de capital fixo, portanto – diminuiu 2,8% de julho para agosto, na série com ajuste sazonal. O indicador já havia recuado em julho, depois de um avanço de 8,2% no mês anterior. Pouco sobra, nesta altura, do avanço observado em boa parte do primeiro semestre.

O investimento em projetos do governo continua muito baixo. No setor privado há pouco estímulo para investir. Num país com 12 milhões de desempregados, famílias empobrecidas e consumo em crise, para que ampliar a capacidade produtiva? Além disso, há muita capacidade ociosa na indústria. Apesar disso, houve algum investimento no primeiro semestre, mas insuficiente para diminuir de forma sensível a queda acumulada em 12 meses – ou, de fato, nos últimos 2 ou 3 anos.

Nos primeiros seis meses de 2016, o indicador mensal do Ipea cresceu 11,14% (tomando-se como base a posição de dezembro do ano passado). Mas a aparente recuperação foi muito frágil. No trimestre móvel terminado em agosto, o índice caiu o,4% em relação ao trimestre móvel anterior. Em agosto, o número foi 10,16% inferior ao de um ano antes.

Diminuíram em agosto tanto as compras de máquinas e equipamentos como os gastos em construções. O consumo aparente de máquinas e equipamentos – produção nacional, mais importações, menos exportações – foi 2,5% menor que o do mês anterior, enquanto a construção civil diminuiu 3,8%. Com a quase paralisia dos programas habitacionais e a crise geral no setor imobiliário, as construtoras foram condenadas a um baixíssimo nível de atividade. Do lado das obras públicas, a estagnação se manteve na maior parte do ano.

As grandes estatais, a começar pela Petrobrás, encolheram seus programas de investimentos, atoladas em dificuldades financeiras e em escândalos. Várias das maiores empreiteiras do País, investigadas na Operação Lava Jato, foram forçadas a reduzir amplamente suas atividades. Suas operações provavelmente seriam afetadas de toda forma pela crise financeira das estatais, suas grandes clientes.

O governo e o mercado projetam para o Brasil um crescimento econômico pouco superior a 1% no próximo ano. O Fundo Monetário Internacional (FMI) calcula uma expansão em torno de 0,5%, depois de uma contração de 3,3% em 2016. Em qualquer caso, a produção só aumentará se houver alguma intensificação da demanda.

Dificilmente um impulso poderá provir dos gastos públicos, porque o governo terá de se empenhar, por vários anos, em tapar o enorme buraco de suas contas. Do lado do consumo privado pouco se pode esperar, pelo menos com base no cenário atual e na evolução mais provável. As expectativas dos consumidores têm melhorado, mas falta saber de onde sairá o dinheiro para qualquer aumento de gastos.

O desemprego dificilmente recuará com rapidez nos próximos meses. Sobra como fonte possível de dinamismo o investimento financiado principalmente com capital privado. Mas esse investimento só parece provável se for vinculado a projetos elaborados pelo setor público. Daí a importância da retomada das concessões na área de infraestrutura.

A partir desse estímulo inicial, a economia ganhará impulso e o empresariado terá algum motivo para arriscar-se em negócios mais amplos. Mas isso dependerá também da confiança na seriedade e na firmeza da política econômica. O presidente Michel Temer e seus ministros devem saber disso, mas terão de mobilizar apoio político para trabalhar com segurança.

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