Investimento social privado

Seus desafios e oportunidades em tempos de crise. É tempo de unir esforços

NECA SETUBAL E JOSÉ MARCELO ZACCHI*, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2017 | 03h00

A profunda crise em que o Brasil está inserido nos leva a refletir sobre a atuação dos diferentes agentes e instituições da sociedade tanto no nível governamental como empresarial e da sociedade civil. A sociedade contemporânea tem questionado os atores dessas diferentes instâncias na busca de mais participação, transparência e resultados, elementos que podem contribuir para o bem comum.

Nesse contexto se põe em debate o papel do investimento social privado – repasse voluntário de recursos privados de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público – e, dentro dele, instituições como o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), do qual acabamos de assumir a presidência do Conselho de Governança e a secretaria-geral, respectivamente.

A trajetória recente do Gife é rica em conquistas e realizações, com ampliação de caminhos para o fortalecimento contínuo do investimento social privado no Brasil e o aprofundamento do seu alcance e seu sentido público. Quando o investimento se alinha a esse sentido, torna-se plural e com a legitimidade reforçada, inserindo-se de forma plena na sociedade e contribuindo para a ampliação da capacidade de ação e de transformação coletivas.

Num momento de perplexidade diante de tantos malfeitos, publicados pelas mais diferentes mídias, torna-se fundamental o aprimoramento de parâmetros de governança, transparência e gestão para que o setor possa demonstrar sua capacidade de efetividade, profissionalismo, inovação e boas práticas, com a busca da equidade como eixo central de sua atuação para a construção de uma sociedade mais justa e sustentável.

Cultivar um espaço de diálogo entre diferentes setores, tanto do campo da sociedade civil como de governos, é também um importante papel a ser aprofundado pelo Gife num momento de intolerâncias e radicalismos crescentes.

Ouvir o outro, aceitar as diferenças e lidar com a heterogeneidade, a pluralidade de canais e atores não é tarefa fácil, mas pode e deve ser desenvolvida pelas instituições que atuam no campo social do investimento privado.

A complexidade do mundo atual exige uma atuação conjunta de parcerias entre os diferentes setores da sociedade para os resultados alcançarem maior escala e impactos positivos e mais sustentáveis na resolução de problemas.

Apoiar organizações de base e trazê-las para esse diálogo também é uma contribuição importante para uma sociedade civil inovadora, autônoma e vibrante. Nesse sentido, é fundamental fomentar o controle social e a participação na construção de políticas públicas, alcançando, assim, maior capilaridade, legitimidade e confiança perante a sociedade.

É ainda nesse marco, no qual as diferentes vozes da sociedade se fazem ouvir e buscam protagonismo, que o alinhamento entre o negócio e as fundações empresariais adquire maior relevância.

As empresas deparam-se com o debate sobre gênero, relações étnico-raciais, inserção de pessoas com deficiência, temas complexos com os quais o alinhamento com as iniciativas do investimento social pode gerar uma ampla contribuição, com base em suas experiências em programas e projetos focados na garantia de direitos.

Finalmente, a expansão do arco temático próprio da atuação do setor pode estar mais articulada de forma conjunta entre as fundações e os institutos com uma contribuição para a agenda pública, tendo como parâmetros os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS/ONU). Diante dos desafios trazidos pelas crises múltiplas que atravessamos, a ação conjugada sobre temas como cidades sustentáveis, gestão de recursos naturais, aprimoramento democrático e ampliação de oportunidades ganha luz e relevo e torna-se imprescindível para um novo horizonte de desenvolvimento compartilhado.

Todo esse contexto temático se conecta a uma questão prioritária para o País neste momento de crise econômica, política e social: o enfrentamento das desigualdades e a busca pela equidade. Nesse sentido, fundações, institutos e empresas devem ter a manutenção do investimento social e a visão de longo prazo como compromissos. Os desafios são enormes e não serão solucionados de forma isolada, mas manter esses dois princípios é uma forma de contribuir para que o tecido social não fique ainda mais esgarçado.

Desigualdades agudas aliadas à falta de políticas sociais não atingem só os grupos mais pobres e marginalizados. Elas causam falta de confiança nas instituições, insegurança generalizada, além de acabarem com as redes de proteção social e de reforçarem a baixa qualidade de serviços de saúde, educação e assistência social. É o momento de estabelecer diálogos, compartilhar experiências e unir esforços.

No Fórum Econômico Mundial de Davos deste ano, a diretora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, depois da apresentação do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, enfatizou que a desigualdade social precisa estar no centro da atenção dos economistas se eles quiserem um crescimento sustentável e, como consequência, uma classe média forte. Para ela, o excesso de desigualdade impõe travas ao desenvolvimento sustentável.

Precisamos ter coragem para influenciar o debate público com estudos, pesquisas e criação de soluções que apoiem uma atuação na arena política não partidária de modo a construirmos uma sociedade mais dinâmica e democrática, com um projeto de futuro orientado pela paz, pela equidade e pela coesão social.

* NECA SETUBAL E JOSÉ MARCELO ZACCHI SÃO, RESPECTIVAMENTE, SOCIÓLOGA, DOUTORA EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO E MESTRE EM CIÊNCIA POLÍTICA, PRESIDE OS CONSELHOS DA FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL E DO GIFE; SECRETÁRIO-GERAL DO GIFE, É FUNDADOR DA CASA FLUMINENSE, DO FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA E DO INSTITUTO SOU DA PAZ

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